Ricupero diz que Brasil dá certo se voltar a crescer e a exportar

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 13 de agosto de 2002 as 17:34, por: cdb

Analista arguto da globalização, Ricupero busca idéias para o desenvolvimento econômico não como um fim em si, mas como um dos meios “para realizar a promoção de todos os homens e do homem como um todo”, como aponta no prefácio do seu livro mais recente, “Esperança e Ação”, com lançamento marcado para o dia 19 de agosto no Brasil.
Herdeiro do pensamento cristão de esquerda, Ricupero é um crítico credenciado das mazelas promovidas pelo absolutismo de mercado. Na chefia da Unctad, que reúne 133 países, a maioria nações pobres, conhece em detalhes os estragos promovidos pela globalização na periferia dos impérios centrais. Mas também é um entusiasta divulgador de trajetórias alternativas que transbordaram da esperança para a ação e desta para projetos de desenvolvimento mais igualitários.
Para Ricupero, assim como para seu amigo de idéias e lutas, Celso Furtado, que prefacia o livro, desenvolvimento é ter controle sobre o próprio destino. E isso requer um Estado ativo, soberania de decisões e distancia da lógica puramente financeira – tanto quanto das instituições que operam a seu serviço. “Esse pessoal é muito perigoso. Escapar da dependência financeira é como pedir demissão da máfia. Requer habilidade”, ironiza o embaixador ao mesmo tempo em que admite que a ida do Brasil ao Fundo Monetário Internacional tornara-se inevitável: “Assim como o Lula fez a comparação figurativa com o dentista, que é adequada, eu faria com um incêndio. Se um incêndio ameaça destruir sua casa, você é obrigado a chamar o bombeiro, ainda que isso vá lhe custar estragos adicionais”.
O desafio agora, no seu entender, é reconquistar espaços soberanos de decisão, que permitam repensar o país e construir um modelo de desenvolvimento mais justo, menos dependente de capitais externos. Não é, porém, obra para quem subordina a política à lógica de mercado. Ao contrário. Por isso o secretário-geral da Unctad, em nome pessoal, já que o cargo o impede de manifestar-se sobre política interna, endossa a tese defendida pelo candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva de que só um novo pacto social poderá repor o Brasil na trajetória do crescimento: “Um governo de compromisso moral com as maiorias, que se imponha pela capacidade de mobilização em torno de um grande acordo baseado numa política de distribuição da renda, e incentivos à indústria de bens consumo de massa, teria força para renegociar espaços de crescimento com os credores”, sinaliza Ricupero.
Leia a seguir trechos de sua entrevista exclusiva ao site da campanha Lula Presidente, na qual o secretário-geral da Unctad diz que o futuro governo deve endurecer na Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e não fazer qualquer concessão sem reciprocidade equivalente dos EUA: “Hoje o nosso trunfo – único – é o tamanho do nosso mercado. No dia em que nós aceitarmos, de mão beijada, que esse mercado não pode mais ser protegido, o que nos restará?”

Todos dizem que o desafio do Brasil é investir, crescer e exportar. Como fazer isso com o estrangulamento externo, monitorado agora pelo FMI (Fundo Monetário Internacional)?
Olha, no momento nós estamos numa situação de desastre. Assim como o Lula fez a comparação figurativa com o dentista, que é adequada, eu faria também com um incêndio. Se um incêndio ameaça destruir sua casa, você é obrigado a chamar o bombeiro, ainda que isso vá lhe custar estragos adicionais, com água por todos os lados… Mas isso se vê depois. Agora os homens têm que subir e apagar o fogo.

Quer dizer, a economia está cariada e incendiada?
É isso. E eu acho que um governo com prioridades sérias terá que negociar com perseverança para convencer o Fundo que a economia precisa crescer. Porque se ela não crescer…

Não há como pagar…
Não há. E não sou eu que digo. Uma publicação acima de qualquer suspeita em matéria de defesa do capitalismo, que é o boletim do banco americano JP Morgan, fez um relatório especial sobre o assunto, datado de 5 de junho. O estudo comenta a volati