Resistência e repressão em Oaxaca

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Publicado domingo, 22 de outubro de 2006 as 12:33, por: cdb

Oaxaca é um estado cheio de problemas sociais. Centro turístico do sul do México, sua geografia está rodeada por favelas alimentadas pelas remessas de trabalhadores imigrantes. Nesse território, estão na ordem do dia as lutas pela terra, os enfrentamentos com os caciques e os “coyotes” [pessoas especializadas em guiar imigrantes ilegais para os EUA], disputas pelas prefeituras, reivindicações étnicas, ações por melhores preços para os produtos do campo e resistência diante do autoritarismo estatal. A violência política contra os dissidentes que
vêm se manifestando desde 15 de maio está na ordem do dia. O movimento transformou-se no vértice onde estão concentradas muitas das contradições sociais desse Estado. Umas 350 organizações, comunidades indígenas, sindicatos e associações civis formaram a Assembléia Popular do Povo de Oaxaca (APPO).

Uma parte importante da sociedade oaxaquenha solidarizou-se com os professores. Não é raro que nesses movimentos participem professores. Mais do que isso, muitos deles foram organizados e dirigidos por líderes. O sindicato do magistério é a única força social democrática
com presença em todo o território. É a única organização capaz de fazer sentir, de maneira coordenada e simultânea, seu peso político em todos os municípios do Estado.

Os professores oaxaquenhos trabalham em condições precárias, com poucos recursos pedagógicos. Seus alunos chegam às escolas com o estômago vazio e precisam abandonar as aulas para ajudar suas famílias nos trabalhos do campo. Não são poucos os que quase não conhecem seus pais, porque eles emigraram para os Estados Unidos. As salas de aula estão pessimamente equipadas. E para chegar às comunidades onde trabalham precisam investir horas e dinheiro em transporte por estradas que existem somente nos relatórios oficiais. Nessas condições, tem sido uma constante na história recente que os professores se identifiquem com as comunidades nas quais trabalham e que se transformem em lutadores não apenas dentro do seu setor, mas que sejam, também, porta-vozes das demandas comunitárias.

Formação do movimento do magistério O protesto em Oaxaca começou como expressão da luta do magistério por  aumento salarial pela via do rezoneamento por custo de vida. Não havia
nisso nenhuma novidade com respeito a lutas similares protagonizadas em anos anteriores. A mobilização dos professores começou numa data simbólica e tradicional no México: o dia 15 de maio, Dia do Professor. É assim que fazem há anos. Procuram utilizar, como vêm fazendo em cada sucessão presidencial, a conjuntura eleitoral para aumentar seu poder de pressão.

O protesto tornou-se mais radicalizado diante da intransigência das autoridades estaduais. Em vez de sentar para negociar, o governador ameaçou os professores, primeiro, e mandou, depois, que suas forças policiais despejassem pela força os líderes acampados no centro da
cidade de Oaxaca. A repressão selvagem do dia 14 de junho levou à radicalização dos professores que, a partir de então, exigiram a destituição do governador. Em vez de procurar canais para viabilizar uma solução, o governo federal optou por desentender-se do conflito e disse que era um assunto local, no qual não tinha ingerência.

Essa explosiva situação política polarizou-se ainda mais como conseqüência das passadas eleições para governador. Gabino Cué, apoiado pelo ex-governador Diódoro Carrasco e por uma coalizão da maioria dos partidos de oposição, enfrentou Ulises Ruiz, um dos principais
operadores de Roberto Madrazo, candidato do Partido da Revolução Institucional (PRI) à presidência. A apertada vitória do representante do PRI foi severamente questionada pelos seguidores de Cué, que denunciaram uma enorme fraude contra ele. A imposição foi consumada, mas os agravos sobreviveram. A conjuntura ficou ainda mais confusa depois do rompimento do governador Ruiz com seu antecessor, José Murat.

A greve do magistério oaxaquenho é um