Requião, o Paranaguá e a China

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Publicado terça-feira, 22 de junho de 2004 as 11:20, por: cdb

O governador Roberto Requião pode sentir-se vitorioso nesse complicado negócio da soja. Por enquanto, e graças ao seu zelo, o porto de Paranaguá continua sendo um exemplo de rigor fiscalizatório.

Os responsáveis pela exportação de grãos contaminados talvez pensassem que ainda existem “negócios da China”, ou seja, que pudessem empurrar para o consumo dos asiáticos as sementes tratadas com agrotóxicos e não utilizadas no plantio passado. Requião, que é contrário aos transgênicos e acredita que os negócios devem ser sérios, tem procurado inspecionar a soja, da melhor maneira possível, a fim de impedir que o cereal contaminado passe pelo porto sob sua jurisdição. E, agora, pede ao governo que determine a marcação obrigatória, com corantes (como ocorre em alguns casos) das sementes destinadas ao plantio.

Até o momento, nenhum carregamento de soja, exportado pelo Paraná, foi recusado pelos chineses. O governador do Paraná e seu secretário da Agricultura, Pessutti, têm sido atacados por alguns produtores e exportadores de soja, em razão de seu rigor na fiscalização. Podemos constatar que o governo tinha e tem razão. É dever do Estado impedir o desvario do setor privado, cujos interesses são imediatistas – e egoístas. Ao agir assim, o governo Requião favorece os produtores honrados e assegura a credibilidade do Paraná no mercado mundial.

É preciso que o governo brasileiro e os exportadores nacionais entendam que não existe mais “negócios da China”, a não ser no contrabando de produtos chineses para o Brasil. Mas, mesmo nesse caso, os lucros ficam apenas com a máfia chinesa que opera no Brasil e com as autoridades que ela consegue corromper.

Em campanha

Fernando Henrique irá visitar o Brasil inteiro, a fim de pedir votos para os candidatos do PSDB. É um direito dele. Como sempre, os empresários associados aos interesses estrangeiros, além dos banqueiros nacionais – que são, hoje, os seus principais financiadores – irão custear-lhe as viagens; se não for diretamente, indiretamente, ao pagar-lhe por palestras. Ele, a cada dia mais, assume a sua postura de político ianque: com o instituto, com as palestras e com o tom irônico com que se refere aos seus adversários.

Mas sua excelência que se cuide. A cada dia mais a cidadania se dá conta de que o acréscimo das dificuldades na vida de cada um de nós é conseqüência de seu desastroso governo. É possível que os tucanos se dêem conta de que é melhor manter o ex-presidente longe dos palanques das grandes cidades brasileiras. Em lugar de ajudar, sua presença poderá atrapalhar. Mas Fernando Henrique vai insistir: na verdade, ele está já em campanha para a sucessão de Lula, em 2006. Mas, até lá, muita coisa ainda pode ocorrer.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, “Mar Negro” (2002).