Rei do Nepal demite premiê e assume comando do governo

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 1 de fevereiro de 2005 as 09:41, por: cdb

O rei Gyanendra do Nepal destituiu o primeiro-ministro do poder, declarou um estado de emergência e assumiu o comando do país nesta terça-feira, afirmando que o ex-dirigente havia fracassado na realização de eleições e na imposição da paz em meio a um conflito contra rebeldes maoístas.

O rei assumiu o controle do Nepal pelos próximos três anos e colocou muitos políticos sob prisão domiciliar, disseram nepaleses e meios de comunicação da Índia.

– Eu decidi dissolver o governo porque ele não conseguiu realizar eleições em abril, não conseguiu promover a democracia e nem a soberania do povo ou o respeito à vida e à propriedade – disse o rei em um comunicado feito por rádio.

Segundo o monarca, um novo governo seria formado sob a liderança dele com o objetivo de “restabelecer a paz e implementar uma democracia efetiva neste país dentro de três anos”, divulgou a agência de notícias Press Trust of India (PTI).

Pouco depois, um estado de emergência foi declarado, afirmou a agência, atribuindo a informação à TV estatal nepalesa. As linhas telefônicas e as redes de celular parecem ter sido colocadas fora de operação na capital Katmandu.

Vôos internacionais foram recusados no aeroporto da cidade e sites de notícias do Nepal saíram do ar, apesar de as ligações por estrada com a Índia terem permanecido abertas. Essa é a quarta vez que o rei tira do poder um primeiro-ministro em menos de três anos. O Nepal não tem um Parlamento desde 2002.

Matthew Kahana, um funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) que mora no país, conseguiu receber uma ligação telefônica e disse que a situação parecia ser de calma. Mas, segundo a PTI, veículos blindados equipados com metralhadoras patrulhavam a capital e as forças de segurança haviam sido reforçadas.

O país, localizado entre a Índia e a China, encontra-se mergulhado em um conflito envolvendo três lados: o rei, os rebeldes maoístas e os partidos, esses também divididos entre si. O rei, acusado frequentemente de abusar de seus poderes, havia, em junho passado, recolocado no poder o primeiro-ministro Sher Bahadur Deuba, dois anos depois de tê-lo demitido pelos mesmos motivos citados agora.

Os rebeldes travam uma luta armada desde 1996 a fim de substituir a monarquia por uma república comunista. Cerca de 11 mil pessoas já foram mortas no conflito. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo e muitos moradores dele ainda vêem o monarca como uma reencarnação do deus Vishnu.

Mas a monarquia perdeu muito de seu apelo quando, em 2001, o então príncipe herdeiro Dipendra matou o pai, o popular rei Birendra, e vários membros da família real dentro do palácio. O príncipe, depois, disparou contra a própria cabeça.