Regurgitofagia, o ator Michel Melamed recebe impulsos elétricos

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Publicado quinta-feira, 13 de janeiro de 2005 as 16:11, por: cdb

Desde os 16 anos, o ator e diretor Michel Melamed tem o hábito de escrever em profusão. Nenhuma de suas inquietações deixou de ser anotada, seja em papel, pano, plástico e até no próprio corpo, como atestaram seus braços e mãos. Hoje, aos 28 e depois de juntar dois tonéis com anotações, Melamed é um cidadão consciente da enorme quantidade de informação que é despejada na rotina das pessoas, a maioria dispensável. Disposto a revelar sua crítica contra esse excedente, ele criou o espetáculo-solo Regurgitofagia, que estréia no sábado (15) no Sesc Belenzinho.

Trata-se de uma nova aplicação do manifesto antropofágico, lançado pelo escritor modernista Oswald de Andrade, ou seja, deglutir o que vem do exterior, imposto como cultura, e vomitar um conceito novo, mais adaptado à condição nacional. Para isso, ele até criou um termo novo – regurgitofagia é uma palavra que une regurgitar (vomitar, expelir excessos) com fagia (sufixo que indica o ato de comer).

Mas Melamed foi além: não satisfeito em apenas criticar, ele decidiu criar uma forma de medição imediata da reação da platéia ao atar os pulsos e os tornozelos a cabos elétricos. Assim, qualquer que seja a reação do público (risada, tosse, comentários, vaias, aplausos), ela é captada por microfones que a transforma em descargas elétricas.

– Essa é a interface tecnológica, chamada pau-de-arara, de um projeto mais amplo para pesquisar o casamento entre arte e tecnologia e pelo qual recebi uma bolsa da Rioarte – conta Melamed, que se transformou na grande sensação do teatro carioca do ano passado – ao estrear em abril com a intenção de cumprir uma curta temporada (três semanas) em horário alternativo.

Melamed sabe que o fio condutor da curiosidade do público está nos choques que recebe ao longo da apresentação – em tempo: nenhuma descarga elétrica é prejudicial à sua saúde. Mas, com o tempo, percebeu também que a crítica embutida em seu texto se tornou motivo de atração.

– Muitas pessoas me procuram no camarim para conversar sobre determinado assunto tratado na peça e é isso que me interessa – conta ele, que chegou a bancar a edição de um livro com suas principais anotações, além de um CD com trechos sonoros do espetáculo.

A procura e a profundidade das críticas de Melamed, porém, convenceram a editora Objetiva a editar Regurgitofagia sob sua chancela. O lançamento, aliás, ocorre no sábado (15), no mesmo dia da estréia. O livro vem ilustrado com a reprodução de muitos dos manuscritos que Melamed acumulou ao longo dos anos. Trata-se de uma boa oportunidade para o espectador avaliar o pensamento do autor e ator com mais tranqüilidade.

Melamed defende, por exemplo, a necessidade de se construir uma consciência crítica e buscar novas formas de reagir com a realidade, uma vez que transformá-la radicalmente é uma idéia que, hoje em dia, não faz mais sentido. Mais que contracultura, Melamed quer incentivar o pensamento. E sua proposta já ultrapassa fronteiras: ele vai levar o espetáculo a Paris, no Ano do Brasil na França, e a Nova York.

Serviço:

Regurgitofagia. Texto e interpret. Michel Melamed. Dir. Alessandra Colasanti, Marco Abujamra e Michel Melamed. 60 min. 14 anos. Sesc Belenzinho – Galpão 1 (120 lug.). Av. Álvaro Ramos 915, 6602-3700, metrô Belém. Após a sessão o Sesc disponibiliza gratuitamente uma van até a estação Belém do metrô. Sáb. e dom., 21h. R$ 10. Até 6/3. Estréia prevista para sábado (15).