Quod abundat non noscet

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Publicado segunda-feira, 3 de fevereiro de 2003 as 12:29, por: cdb

A governadora Rosinha Garotinho anda sumida desde a eclosão do escândalo dos fiscais. Tem-se limitado a despachos internos e, mesmo na posse dos deputados estaduais, domingo passado, fez-se representar pelo vice Luiz Paulo Conde. O ex-governador Anthony Garotinho é outra figurinha rara nos dias de hoje. Logo ele, que tem um enorme apreço pelas aparições na mídia, depois de uma reação descontrolada na única entrevista coletiva sobre o caso, por sinal infeliz, também parece que tomou doril.

Dependendo, porém, de como seja investigado, o caso dos fiscais ainda pode dar panos para manga. E, para desgosto do casal Garotinho, começam a aparecer notícias na imprensa vinculando o ex-chefe do Gabinete Civil de Garotinho e atual secretário de Transportes de Rosinha, Augusto Ariston, e o empresário Amaury de Andrade, dono da Viação 1001, na embrulhada. Isto não foi uma boa notícia para o casal Garotinho, a quem os dois são, sabidamente, muito ligados.

Sem querer acusar quem quer que seja sem provas, é evidente a dificuldade de um esquema de tal envergadura ter funcionado por tanto tempo sem a conivência de escalões superiores. Essas coisas acabam transpirando, como ocorreu no suspeito episódio da Light. A tentativa de extorsão foi filmada, denunciada e, posteriormente, engavetada pelo Ministério Público Estadual.

Agora, o caso voltou à tona. E o Ministério Público Estadual, cujo titular tem ligações com seu antecessor, promete reabrir o caso. Enquanto isso, se fala em “rigorosa apuração” no âmbito do governo estadual e a Assembléia Legislativa cria uma CPI para investigar as denúncias.

Tudo muito bem, tudo muito bom. Mas, aproveitando o fato de que o caso envolve também fiscais federais, seria extremamente positivo que instâncias federais acompanhassem as investigações. Os deputados federais Chico Alencar e Antônio Carlos Biscaia, no dia mesmo em que foram empossados, sábado passado, pediram a criação de uma comissão da Câmara para acompanhar as investigações. A deputada Heloneida Studart solicitou também ao ministro-corregedor, Waldir Pires, que se debruçasse sobre o caso. Providências como essas podem ser decisivas para que se chegue a algum lugar na apuração dos fatos. Afinal, há circunstâncias que aproximam alguns dos denunciados ao esquema político Sérgio Cabral-Jorge Piciani que, há anos, controla a Alerj e vai controlar a CPI. A própria mulher do hoje notório Silveirinha estava lotada no gabinete de Cabral.

Dirão alguns que na CPI da Alerj há deputados de vários partidos e isso garante isenção. Ora, respondo eu, numa CPI ter a maioria, o presidente e o relator. Ademais, não é segredo que, mesmo em bancadas de partidos de oposição ao governo estadual, há deputados ligados ao esquema Cabral-Picciani.

Assim, a chance de surgir alguma luz em torno ao caso reside em não circunscrevê-las ao âmbito estadual. Na pior das hipóteses, mal não fará. Afinal, como dizia minha avó, quod abundat non noscet (o que é demais não prejudica).

*Cid Benjamin é jornalista