Quem mandou votar no homem?

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Publicado quinta-feira, 1 de abril de 2004 as 10:31, por: cdb

Comentei no artigo da semana passada que os petistas estão tristes – mais do que tristes: desmoralizados. A sua tristeza e a sua desmoralização aumentam quando vêem o presidente da República munir-se de uma eloqüência de vendedor de caneta-tinteiro para explicar alguns princípios econômicos básicos da “ortodoxia de galinheiro para consumo popular”, uma inovação brasileira que certamente fará escola em boa parte do mundo subdesenvolvido (ver As quatro transfigurações da ortodoxia econômica, Agência Carta Maior, 23 de março de 2004).

Na realidade, não só os petistas, mas os brasileiros de uma maneira geral estão começando a ficar desanimados com o governo Lula. É o que aparece nas últimas pesquisas de opinião. O Brasil não consegue retomar o crescimento de forma convincente, o desemprego permanece muito alto, os salários reais não se recuperam. Além disso, o presidente dá sintomas de contaminação pelas teses, às vezes simplistas, sempre discutíveis, dos economistas e financistas que dominam quase todos os postos-chave na Fazenda e no Banco Central.

Digito esses parágrafos e paro. Preciso abrir um parêntese. Ninguém duvida, ninguém discute que o presidente da República é uma figura fora do comum. O seu governo é superior aos anteriores em alguns setores, notadamente no campo da política externa. Nos seus freqüentes improvisos, Lula diz muitas coisas verdadeiras e muitas coisas importantes, ainda que a imprensa prefira concentrar-se nos escorregões e nos lances folclóricos. O presidente é um intuitivo e, com a sua intuição e inteligência, percebe muitos aspectos que nos escapam ou que demoramos a compreender.

Infelizmente, a intuição é uma plataforma precária para lançar certos assuntos, como observei na semana passada. É comum que resultados importantes da ciência, mesmo de uma ciência duvidosa como a economia, tenham um caráter contra-intuitivo.

Por exemplo: se todos procuram aumentar simultaneamente a sua poupança individual, qual a conseqüência no plano macroeconômico? Uma queda da demanda, da produção, da renda e – da poupança global. “Não sou daqueles que gastam o 13º em janeiro”, revelou o presidente da República em um dos seus pronunciamentos recentes. Ora, se todos os trabalhadores seguissem fielmente o exemplo presidencial, a demanda de consumo, já retraída, cairia e “o espetáculo do crescimento” ficaria mais distante. Ironicamente, os trabalhadores econômicos e prudentes correriam risco ainda maior de serem punidos com o desemprego…

Outro exemplo do mesmo tipo: o orçamento doméstico apresenta semelhanças apenas superficiais com o orçamento público. O governo nem sempre pode se pautar pelo princípio da economia popular, aparentemente sensato, de que “não se deve gastar mais do que se ganha”. Como o setor público tem, em geral, grande peso nas economias modernas, medidas de expansão ou contenção de despesas e receitas públicas produzem repercussões sistêmicas que retroagem sobre as próprias contas do governo, anulando no todo ou em parte os efeitos buscados por essas medidas.

Assim, se a economia está em recessão, pode ser contraproducente a tentativa de equilibrar as contas públicas com cortes de gastos ou aumentos de impostos. O resultado da austeridade fiscal tende a ser uma queda ainda maior da demanda agregada e da atividade produtiva. Diminui, portanto, a base sobre a qual incidem os impostos e cai a receita. Ao mesmo tempo, aumentam automaticamente certos tipos de despesa, como por exemplo o seguro-desemprego. Em determinadas circunstâncias, o efeito final pode ser até uma ampliação do déficit público. Se o governo insiste então em aplicar preceitos da “economia popular” e aplica novos cortes de gastos ou aumentos de impostos, o círculo vicioso recomeça, levando no limite a uma espiral deflacionária do tipo da que aconteceu na Grande Depressão dos anos 30 do século passado.

Evidentemente, o presidente Lula não levará a sua retórica ortodoxa a esses extremos.