Quem ganhou, quem quer ganhar

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Publicado quinta-feira, 2 de novembro de 2006 as 22:29, por: cdb

Escreveu-me Saul Leblon:

“A direita nativa continua arrotando peito de peru embora as urnas lhe tenham reservado um magro sanduíche de mortadela. Para quem estranha o bico em pé, a tucanagem rebate de pronto: “a eleição não muda nada”.

Voto e democracia são referencias ornamentais no seu livro de história. No mundo “realmente existente” a prerrogativa do futuro cabe ao mercado, ungido de poder prevalecente sobre a manifestação dos cidadãos.

Embalados nessa convicção – sonora e ruinosa – os derrotados querem nada mais nada menos que a plataforma repudiada nas urnas seja adotada pelo vencedor, no day after da disputa.

É isso que o jogral conservador formado pelos afinadíssimos graves e agudos do PSDB, PFL e seus ventríloquos na mídia – bem como falsetes de dentro do governo – ecoa pelos noticiosos dia e noite.

É forçoso reconhecer a coerência, quase autista, desse adestrado canto orfeônico sempre prestigiado pela elite.

Um segundo governo Lula – diziam ontem e repetem hoje, alto e bom som – desnudará a fragilidade do modelo de “desenvolvimentismo” “ameaçado’ no primeiro mandato. Vale dizer, desmoralizará a narrativa eleitoral que deu a guinada vitoriosa a Lula no segundo turno.

O arco formado por um mercado de massas em expansão, combinado com exportações vigorosas, inflação baixa, redução dos juros e retomada do
investimento público não teria chance de se pôr de pé e se sustentar, de acordo com esses “analistas isentos”.

É preciso registrar, antes de mais nada, um avanço notável embutido no seu raciocínio. Depois de passar três anos dizendo que o governo Lula era um FHC com o deságio das condições internacionais favoráveis, agora o bunker ortodoxo admite a existência de uma “inviável” alternativa em gestação.

Mais uma razão para que os think tanks de bico longo e idéias curtas vaticinem o esgotamento dessa heresia antes que ela (re)nasça. Ao se mostrarem mais desfavoráveis, as condições externas realçariam certos gargalos congênitos a impedir a “guinada” desenvolvimentista apregoada por setores do governo. A saber, a dívida pública asfixiante e seu corolário, a política monetária inibidora do investimento; o desarranjo fiscal que realimentaria o déficit; os juros siderais que exprimiriam esse desequilíbrio e não uma usura rentista; e, finalmente, a revestir tudo isso, o colapso do investimento público em infra-estrutura e serviços em geral.

O que está embutido neste raciocínio é mais que um alerta. Trata-se de antecipar os desdobramentos desse processo para defender a inexorabilidade de uma agenda conservadora que se sobreponha à soberania das urnas.

Na prática é como se dissessem ao Presidente releeito: “OK, Lula: você ganhou, mas não leva. Quem continua n o comando estratégico somos nós”.

Agora que já se pode falar em contraposição de modelos, está implícito nesse diagnóstico um retorno sem ressalvas ao receituário exaustivamente prescrito antes, durante e depois das eleições: mais arrocho fiscal; abandono do projeto multipolar embutido no Mercosul e na integração sul-americana, em favor de uma guinada ao Norte. Nova
escalada contra os direitos trabalhistas. Redução da fatia do trabalho na renda nacional -o que implica esfarelar os ganhos do salário mínimo. Um upgrading no desmonte do Estado com desvinculação orçamentária nas áreas da educação e da saúde. E abandono da gastança redefinidora do motor do desenvolvimento, nas suas diferentes versões: crédito popular; investimento em habitação popular e urbanização das periferias metropolitanas, apoio à agricultura familiar e reforma agrária .

O corolário político disso tudo nunca é dito. Por razões óbvias. Mas é aí que a porca emperra. Para que esse retrocesso passe pela garganta de quem gritou “sem medo de ser feliz” pela segunda vez, ainda que um tanto desmotivado. É necessário reverter o governo de portas abertas que o Presidente Lula fez no primeiro mandato. Apesar das coniv