Quaresma

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Publicado quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005 as 11:41, por: cdb

Nada é mais belo e misterioso que nossas tradições, nossa cultura, nossos ritos. Nascemos assistindo e praticando e não pensamos em sua origem e evolução, nem sequer imaginamos o quão antigas são. Assim acontece com a Quaresma, palavra importada à nossa língua que já assimilou um significado próprio.

Quaresma, do latim quadragésima, é um período de quarenta dias que vai da quarta-feira de cinzas até o domingo da Páscoa. É um período de penitência, jejum, oração e conversão. A prática das cinzas já era utilizada pelos judeus para expressar penitência e pesar. O número quarenta sempre foi associado à renovação, ao renascer. E qual a origem esse significado?

Sabemos que a primeira referência ao número quarenta foi o dilúvio purificador que durou quarenta dias e quarenta noites (Gênesis 7,17), escapando Noé e seus descendentes. Depois vemos que os egípcios embalsamaram o corpo de Jacó em quarenta dias (Gênesis 50,3), conforme o costume egípcio.

Ao encontrar Deus na montanha, Moisés ficou quarenta dias e quarenta noites (24,18). Quando recebeu as duas tábuas da aliança, Moisés ficou outros quarenta dias e quarenta noites com Deus (Êxodo 34,28). Os enviados de Moisés à Terra Prometida também demoraram quarenta dias (Números 13,25). E Moisés só inicia a invasão, quero dizer, a ocupação da Terra Prometida quarenta anos após fugir do Egito (Deuteronômio 1,3). Cada dia corresponde a um ano conforme está explicado em Números (14,34).

Elias foi ao Horeb andando quarenta dias (1 Reis 18,8), como Moisés e, mais curioso ainda, ambos estavam presentes na transfiguração de Jesus. Outro profeta, Jonas, anunciou a destruição de Nínive em quarenta dias (Jonas 4,3), não sem antes passar três dias engolido por um peixe por recusar a missão, afinal, a Babilônia arrasou o reino de Israel.

Jesus, antes de iniciar sua vida pública, passou pelo ritual de purificação, foi ao deserto e jejuou quarenta dias e quarenta noites (Mateus 4,2) para preparar-se para sua missão. E depois, ressuscitado, permaneceu quarenta dias com os apóstolos (Atos 1,3) ensinando-os, renovando-os para a nova fase da missão.

E por que quarenta? Até a ciência moderna utiliza o termo quarentena para determinar o isolamento por perigo de contaminação de doenças. Os astronautas ficavam de quarentena (só que de 21 dias) quando voltavam da Lua. De onde vem esse número? Quarenta é o número de semanas que demora para a gestação de um ser humano, o tempo que levamos para adquirir vida, desenvolver um organismo apto a sobreviver. Coincidência? Creio que não!

Assim, quarenta semanas ou dez meses lunares (daí também a importância do número dez para a religião judaico-cristã, como os dez mandamentos, um para cada mês?) é o tempo para recebermos (de Deus) uma vida nova, os nossos bebês, purificada da maldade humana, um livro em branco para ser escrito. E a escrita acontece através de um ambiente tranqüilo e acolhedor, do amor recíproco e exclusivo dos pais, da alegria, da paciência e da perseverança.

De fato, a nossa vida é uma quaresma repleta de sofrimentos. Mas temos em Cristo um alívio para o nosso fardo, um descanso consolador e repositor de nossas energias e coragem (Mateus 11,28-30). A vida, por mais terrível que seja, pode ser muito boa se formos humildes e soubermos adequar nossas ambições ao possível. O sofrimento está em não aceitar o impossível de ser mudado (inconformidade inútil) e em ficar desanimado para mudar o possível (conformidade preguiçosa).

Assim, quem crê em Deus deve aceitar os reveses da vida e lutar para uma Páscoa (passagem) humana, tal qual a de Moisés: da escravidão à liberdade, da pobreza à igualdade, do ódio ao amor. Também a Páscoa de Cristo, pela sua morte, apagou nossos pecados e sua ressurreição nos trouxe vida nova, e vida em abundância (João 10,10). Esse período deve servir para avivar nossa memória e despertar em nós a coragem necessária para viver os ensinamentos de Jesus Cristo. E, se e