Quanto mais próximo, mais polêmico

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Publicado sexta-feira, 21 de janeiro de 2005 as 00:28, por: cdb

Falar sobre traição e relacionamentos conturbados em filmes cria sempre uma polêmica saudável. É natural essa repercussão do tema quando ele é levado de forma séria para as telas. Perto demais, novo filme do diretor alemão Mike Nichols é uma interessante incursão nesse universo que certamente vai trazer alguma polêmica. No elenco, Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen (em uma extraordinária performance).
 
A polêmica em Perto demais se dará de forma fílmica e extra-fílmica. Fílmica porque, apesar de não trazer cenas de sexo explícito ou sequer uma cena nudez, tem diálogos fortes e um enredo bastante marcante. Extra-fílmica porque é surpreendente ver Julia Roberts, a bem comportada atriz de filmes água-com-açucar, descrevendo atividades sexuais de forma bastante clara e direta. E mais surpreso vai ficar o espectador incrédulo no potencial da atriz. Roberts está bem (aproveitando para rememorar o que sua personagem em Nothing Hill afirma, “Um dia vão descobrir que eu não sei atuar” – alguma hora ela ia acertar).
 
Alguns podem ver essa “virada” de Roberts na escolha de papéis como uma oportunidade de sair do óbvio e dar alguma credibilidade ao seu status de atriz. Pode até ser. Mas poucas atrizes se lançam a desafios como esse. Juliane Moore foi um pouco mais além em Boogie Nights, há seis anos. Deve se levar em conta que Hollywood é bastante conservadora e, de fato, pode estagnar uma carreira devido a uma má escolha de papel (por exemplo, um ator pode cair no ostracismo por escolher um papel de homossexual ou uma atriz ser mal vista por fazer cenas de nudez ou sexo). Felizmente Juliane Moore não “sofreu” por causa de sua personagem no filme de Paul Thomas Anderson. O mesmo não deve acontecer com Julia Roberts, devido à longevidade de sua carreira.   
 
No plano fílmico, Perto demais é uma visão bem próxima e verossímil das questões conflituosas que cercam uma traição, sem firulas ou pudores. Nos últimos anos vimos de forma magistral em De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, uma busca pela infidelidade frustrada e auto-diagnosticada a partir do desejo carnal. A constatação da mulher (Nicole Kidman) em superar as devassadas tentativas de traição do marido (Tom Cruise) e de seus próprios desejo enrustidos a partir do sexo, no filme de Kubrick, parece dialogar de alguma forma com a eventual troca de casais em Perto demais. E as coisas mudam de figura no filme de Nichols exatamente a partir das relações sexuais. Em Kubrick, busca-se o ato sexual. Em Nichols os fatos se degringolam a partir do sexo consumado. Porém, em ambos, a resolução da crise matrimonial só pode ser resolvida a partir da ação física. A afinidade é, antes de mais nada, a linguagem do corpo. 
 
Adrian Lyne também fez uma incursão ao gênero (com cara de sessão da tarde) em Infidelidade. O título é tão claro quanto o filme. Infidelidade acrescenta morte ao enredo do casal que passa por um desvio amoroso. Não traz nenhuma novidade, mas agradou por causa do tema.
 
Perto demais é, dos três filmes sobre traição citados, o mais direto. Se fizermos uma escala entre os três, De olhos bem fechados foi o que trouxe a questão de forma mais poética. Infidelidade projetou um painel anêmico e pasteurizado do tema e Perto demais foi o que chegou mais longe às vias do real (não por acaso o título original é Closer – “mais próximo”).