Provão mostra que falta qualificação a formandos de Medicina

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Publicado sexta-feira, 14 de dezembro de 2001 as 19:52, por: cdb

Uma radiografia feita pelo Exame Nacional de Cursos (Provão) revela que a maioria dos novos médicos tem nível insuficiente para exercer a profissão. A análise é feita pelo corregedor do Conselho Federal de Medicina (CFM), Roberto D´Ávila. Pelo resultado do exame, 66,5% dos 83 cursos avaliados tiveram conceitos C, D e E. Apenas 13,3% obtiveram nota máxima e 20,5%, nota B. A média das notas dos formandos ficou abaixo de 5, numa escala de 0 a 10.

“A nota C é muito preocupante, pois os médicos lidam com a vida humana”, afirma D´Ávila. Ele anunciou que o conselho começou a estudar a possibilidade de, a exemplo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), adotar um exame prévio para o médico entrar no mercado. Essa proposta precisa passar pelo Congresso.

Roberto D´Ávila também defende o fechamento imediato dos cursos com seguidos conceitos ruins. “No caso de medicina, não basta suspender vestibulares”, diz. Ele refere-se à decisão tomada pelo Ministério da Educação (MEC), nesta semana, de proibir novas seleções de alunos para 12 cursos de letras e matemática que pelo terceiro ano consecutivo tiraram notas ruins no Provão.

Nas contas do CFM, dos 108 cursos em funcionamento no País, 18 foram abertos nos últimos dois anos. E mais 14 faculdades aguardam análise de pedido de autorização para novas matrículas. A Secretária de Ensino Superior do MEC ressalta que as universidades e centros universitários têm autonomia para abrir cursos.

Para o corregedor do CFM, nem sempre há necessidade social de novas faculdades. “O ideal é termos avaliações no decorrer do curso e não apenas no último semestre”, afirma Roberto D´Ávila. Dos cursos de medicina que tiraram nota máxima no Provão, dez são públicos. Apenas o curso da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo é privado.

Na lista dos melhores está o curso da federal Fluminense (UFF). “O aluno é formado para ser um médico da família”, afirma o reitor Cícero Mauro Rodrigues. A nota máxima obtida pelo curso não foi surpresa para o reitor. Com conceito C no Provão de 1999 e D no ano passado, o curso da UFF sofreu mudança curricular a partir de 1994. Antes, os calouros de medicina eram levados para o Hospital Universitário. Foi o que ocorreu em 1975 com o atual diretor da Faculdade de Medicina da UFF, José Carlos Carraro Eduardo.

Ele conta que ao entrar “de branco” pela primeira vez num hospital se deparou com a UTI e dois pacientes que acabaram morrendo. “Agora, o aluno passa os dois primeiros anos de curso em programas nos postos de saúde da cidade, sem choques e com uma visão mais ampla das doenças”, conta. Sob a orientação de um professor, grupos de seis alunos acompanham casos de hipertensão e diabetes e até a situação da rede de esgoto. O estudante chega ao hospital mais preparado, explica Eduardo.

A UFF também aumentou de um para dois anos o tempo de internato médico. É nesse período que o estudante aprofunda os estudos nas grandes áreas médicas, como pediatria e cardiologia. “A meta é formar profissionais para atuar com eficiência no SUS, o plano de saúde da maioria dos brasileiros”, ressalta. “Um médico não pode exercer a profissão sem o calor e o afeto humano.”