Projeto Rondon ressurge amanhã 16 anos depois de ser extinto

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Publicado segunda-feira, 17 de janeiro de 2005 as 21:00, por: cdb

Rota habitual de traficantes de drogas guerrilheiros colombianos e organizações não-governamentais (ONGs) ligadas a interesses estrangeiros, Tabatinga (AM), na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, vive nessa terça duas estréias – a do novo avião presidencial, o Airbus C-319, e a do Projeto Rondon, que ressurge 16 anos depois de ser extinto, em 1989, pelo governo do ex-presidente José Sarney.

Nesse vôo inaugural, de três horas e meia, sem escala, o avião levará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a solenidade de relançamento do projeto. Com ele, estarão pelo menos dois ministros: o da Educação, Tarso Genro, e o do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Jorge Armando Félix. Em seguida, Lula terá uma reunião com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, em Letícia, naquele país, para discutir questões de segurança na fronteira.

Criado em 1967 – durante o governo do general Costa e Silva – para missões de integração de populações no interior do País, o Projeto Rondon foi usado, durante 22 anos, para envolver estudantes universitários na assistência a cidades distantes, não beneficiadas por qualquer programa governamental. Com a retomada – feita por Lula a pedido da União Nacional dos Estudantes (UNE), sem criar um novo nome nem novos símbolos -, o governo do PT tenta compensar a falta de uma ação organizada em áreas de fronteira.

Para levá-lo adiante, 200 universitários de diversas instituições começam a desembarcar amanhã em Tabatinga, de onde seguirão, em barcos, rumo a comunidades ribeirinhas. Além dos estudantes, a missão inclui pelo menos 40 militares e fará diagnósticos da realidade social de 13 lugarejos, incluindo vilas da área da Cabeça do Cachorro, na divisa com a Venezuela. Os relatórios preparados pelos universitários serão aproveitados pelos órgãos públicos.

Reaproximação – A volta do Rondon ocorre num momento em que tanto o movimento estudantil busca reconquistar uma a imagem que tinha, em muitos setores da sociedade, nos anos 90. “Vivemos um momento diferente”, avalia o presidente da UNE, Gustavo Petta. “É importante uma aliança em defesa da Amazônia.” De sua parte, o objetivo das Forças Armadas é integrar o Projeto Rondon na fiscalização de ONGs que proliferam na Amazônia, alegando defender povos nativos, mas dedicadas a interesses de estrangeiros.

Selva – Hoje, os estudantes do Projeto Rondon participaram de treinamento no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus. Pela manhã, percorreram uma trilha de 850 metros numa área de floresta. O Exército decidiu fazer o treinamento como uma forma de mostrar aos estudantes a escola que prepara militares. Os universitários não desenvolverão trabalhos de selva.

Eles apenas visitarão comunidades e núcleos urbanos na Amazônia. Durante a caminhada na trilha, os universitários conheceram espécies nativas como a samaúma, uma árvore gigante conhecida por “tambor da selva”. Quando um ribeirinho se perde no mato, ele bate um facão no tronco da árvore para avisar que está perdido. As “Patricinhas” e “Mauricinhos” da turma não economizaram protetor solar e repelentes.

“Aqui é muito quente; parece que estou num show de axé em Salvador”, reclamou uma estudante baiana. Já outra, de Minas Gerais, disse que precisava de um “capacete de construção civil” para não se machucar nos espinhos de tucum.

O coordenador do Projeto Rondon, general Gilberto Arantes Barbosa, contou que várias mães telefonaram para pedir que cuidasse dos filhos. “Na verdade, os estudantes estão muito animados, parecem que estão descobrindo um outro planeta”, afirmou. A meta do governo, segundo ele, é expandir o Rondon ainda neste ano para o Semi-Árido nordestino. Nesta primeira fase, o projeto está orçado em R$ 2 milhões.