Projeto que quer regulamentar o porte de armas aumenta as vendas em BH

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Publicado sexta-feira, 19 de setembro de 2003 as 01:01, por: cdb

A tramitação do projeto que regulamenta o porte e a posse de armas no país está provocando reações nada pacifistas em Belo Horizonte. Nas últimas semanas, a procura por revólveres e pistolas em lojas especializadas da cidade aumentou, em média, 30%.
 
– O boato da proibição provocou uma grande correria a lojas de armas da cidade – disse na última quinta-feira o chefe da Delegacia de Armas e Munições (Deame), delegado Marcus Silva, que teme pela onda crescente do ‘armamento a qualquer custo’.

Após meses de debates, a Comissão de Segurança Pública e Crime Organizado da Câmara Federal aprovou na última quarta-feira, por 29 votos a dois, o relatório da deputada Laura Carneiro (PFL-RJ) sobre o Estatuto do Desarmamento, projeto que regulamenta o porte e a posse de armas no Brasil.
 
Depois de muita discussão, os parlamentares decidiram retirar o item que previa um referendo em 2005 para saber a opinião da população sobre a proibição ao comércio de armas.

Mesmo antes da definição de realizar ou não tal plebiscito, a procura por armas em Belo Horizonte continuou surpreendendo os lojistas.
 
– Parece que as pessoas estão mais desconfiadas do que nunca – disse o empresário Renato Lúcio Domingues, dono de uma das mais tradicionais lojas de armas da cidade.

Segundo ele, as vendas neste ano aumentaram em 35%, comparando a igual período de 2002.
 
– No início de agosto, a procura passou a ser ainda maior – afirmou.
Ainda segundo Domingues, entre as armas mais procuradas estão o tradicional revólver calibre 32 e a pistola calibre 386 (16 tiros), que custam, respectivamente, R$ 855,00 e R$ 1.380,00.
 
Essa ‘clientela súbita’, revela o lojista, ‘é formada principalmente por profissionais liberais, como médicos, engenheiros e dentistas’.

Também proprietário de uma loja de caça e pesca, o empresário José Eimar Monteiro diz nunca ter visto tanta gente procurando armas de fogo como nas últimas semanas.

– Desde o início de agosto pelo menos cinco pessoas aparecem, diariamente, atrás de revólver ou pistola semi-automática. Se tivesse vendendo esse tipo de mercadoria, meu faturamento seria infinitamente maior – calculou.

O empresário Edgar Assunção Andrade também se disse surpreso com o aumento da procura. Segundo ele, a demanda cresceu cerca de 30%, principalmente de interessados em pistolas semi-automáticas.

O chefe da Divisão de Crimes contra a Vida (DCcV), delegado Elcides Guimarães, alerta para os riscos dessa busca frenética por armas de fogo.
 
Ele lembra que ter uma arma em casa não é garantia de segurança:
 
– Quanto maior o número de armas em circulação, maior a possibilidade de haver acidentes ou incidentes.

– Sem treinamento adequado, há sempre perigo iminente ter uma arma por perto. Sem contar o risco da arma cair nas mãos de bandidos – complementou.

O policial revelou que só neste ano, entre os 718 homicídios registrados em Belo Horizonte, 73,81% foram vítimas de armas de fogo.

Já o superintendente geral da Polícia Civil, Elson Matos, defende o uso de armas de fogo pelo cidadão comum:
 
– É um direito do cidadão se defender. Ter arma em casa é um direito. A polícia não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

O relatório aprovado estabelece que a concessão do porte de armas deixa de ser exclusiva da Polícia Federal. Poderá ser concedido pelas secretarias estaduais de Segurança Pública, desde que seja feito um convênio com o Ministério da Justiça. O estatuto seguirá agora para análise. Se sofrer alterações, retorna para o Senado, onde foi aprovado inicialmente.