Proibido votar em Deus

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado domingo, 7 de outubro de 2012 as 08:11, por: cdb

Foi-se o tempo em que, de posse da caneta esferográfica dentro de um cubículo de papelão, o eleitor sentia-se livre para manifestar suas fantasias eleitorais — mesmo que elas não lhe valessem o sacrifício de sair de casa para escolher um candidato. Então, ciente de que só um santo concebe um milagre e que é impossível a presença de um político metafísico neste mundo, o cidadão não titubeava em rabiscar a cédula: “Deus para presidente!”

Isso, quando não chateado pela consumação de um feriado sem graça, mandava todos os postulantes— a qualquer cargo que fosse — para um lugar comum, menos para os palácios de governo tão almejados. Ou, menos afoito e mais camarada, dava a bênção sem exceção: “Deus ama todos vocês!” E, quando confuso com tantos números a decorar, mandava um “Deus salve o país!”

É evidente que a implantação da urna eletrônica no pleitos não foge à democracia. Tem-se o direito ao voto — agora pelo teclado — ou à justificativa da ausência dele, mas a máquina cheia de números suprime, de certa forma, a liberdade de pegar em uma caneta e opinar no papel sobre a postura de um candidato. Mandar alguém para Brasília, democraticamente, ou para o Afeganistão, discretamente.

Era através da apuração dos votos que um mesário, por exemplo — quando não a mídia — sabia de fato como um político era amado ou odiado. Ali sim, à sua frente, os inúmeros rabiscos denunciavam as verdadeiras pesquisas de rejeição a determinado nome.

A nova urna ganhou seu espaço. Os grotões, há pouco tempo, tinham o resquício da cédula e a esperança de um contato com o ser superior. O teclado os priva dos “palavrões”, mas, no fim, quem ganha é Deus. Ele será poupado.

* Leandro Mazzini é jornalista e escritor, editor da Coluna Esplanada.

Crônica extraída do livro Corra que a política vem aí! (Litteris Editora), 70 pág.
Capa e charges de Aliedo
Prefácio de Carlos Heitor Cony
Apresentação de Murilo Melo Filho

Comments are closed.

Proibido votar em Deus

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 7 de outubro de 2002 as 19:37, por: cdb

Foi-se o tempo em que, de posse da caneta esferográfica dentro de um cubículo de papelão, o eleitor sentia-se livre para manifestar suas fantasias eleitorais – mesmo que elas não lhe valessem o sacrifício de sair de casa para escolher um candidato. Então, ciente de que só um santo nos concebe um milagre e que é impossível a presença de um político metafísico neste mundo, o cidadão não titubeava em rabiscar a cédula: “Deus para presidente!”
Isso, quando não chateado pela consumação de um feriado sem graça, mandava todos os postulantes – a qualquer cargo que fosse – para um lugar comum, menos para os palácios de governo tão almejados. Ou, menos afoito e mais camarada, dava a bênção sem exceção: “Deus ama todos vocês!” E, quando confuso com tantos números a decorar, mandava um “Deus salve o país!”
É evidente que a implantação da urna eletrônica nos pleitos não foge à democracia. Tem-se o direito ao voto – agora pelo teclado – ou à justificação da ausência dele, mas a máquina cheia de números que enfrentaremos,novamente, no dia 27 de outubro, de certa forma suprime a democracia que nos cabia: a liberdade de pegar em uma caneta e opinar no papel sobre a postura de um candidato. Mandar alguém para Brasília, democraticamente, ou para o Afeganistão, discretamente. Era através da apuração dos votos que um mesário, por exemplo – quando não a mídia – sabia de fato como um político era amado ou odiado. Ali sim, à sua frente, os inúmeros rabiscos denunciavam as verdadeiras pesquisas de rejeição a determinado nome.
A nova urna está completando seis anos de existência. Eram 77.469 em 1996, somente nas capitais e em cidades com mais de 200 mil eleitores. Os grotões, na época, tinham o resquício da cédula e a esperança de um contato com o ser superior. Hoje já são 406 mil máquinas por todos os cantos do país. Elas nos privam os “palavrões”, mas, no fim, quem ganha é Deus. Ele será poupado.