Professor do MIT prevê real em queda caso a crise perdure

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Publicado quinta-feira, 6 de setembro de 2001 as 15:49, por: cdb

O economista Rudinger Dornbusch, professor do Massachusets Institute of Technology (MIT), afirmou que se a crise econômica aumentar no Brasil, o real ainda pode se desvalorizar mais 10%.

Em entrevista exclusiva ao programa De Olho no Mundo, uma co-produção da BBC Brasil e da Rádio Eldorado AM de São Paulo, Dornbusch fez uma análise das atuais dificuldades econômicas enfrentada pelos Estados Unidos, pela Argentina e pelo Brasil.

Ele disse que, por causa da crise argentina, seria arriscado reduzir os juros agora no Brasil. Segundo Dornbusch, a definição do nome do candidato do governo à Presidência vai “ajudar a sustentar os investimentos e a confiança no Brasil”.

Dornbusch nunca poupou críticas ao Brasil. Mas, atualmente, ele, que já chamou o presidente Fernando Henrique Cardoso de “fraude”, adota um discurso mais moderado quando fala sobre o país.

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

BBC – A economia mundial vive hoje uma situação muito diferente da de um ano atrás, quando a economia americana e a européia estavam crescendo. O que o senhor acha que vai acontecer agora?

Rudinger Dornbusch – A economia mundial está numa situação muito difícil: Japão em débito, Europa e Estados Unidos indo em direção à recessão. O crescimento dos Estados Unidos é essencial para empurrar Europa, Ásia e América Latina. Mas eu acredito que teremos uma reviravolta em breve nos Estados Unidos. Diria que há 70% de probabilidade de recuperação. Mas ainda haveria 30% de possibilidade de os Estados Unidos não decolar, de escorregar junto com a economia mundial. Acho que setembro será um mês muito importante.

BBC – O senhor, então, está otimista?

Dornbusch – Sim, 70% é bem otimista, mas eu não diria 100%, não tenho certeza absoluta. Isso depende da confiança do consumidor, do nível de consumo. Até agora eles têm reagido bem, mas eles podem ficar cansados.

BBC – Os números mais recentes mostraram uma redução no consumo, que até então estava crescendo e puxando a economia americana. O senhor acha que o medo de perder o emprego pode tornar os consumidores americanos mais cuidadosos na hora de gastar?

Dornbusch – Acho que isso não é relevante. Nós temos pleno emprego nos Estados Unidos. O nível de emprego é igual ao dos anos 60. Não existe uma queda de confiança dramática, apenas uma queda no alto nível de consumo que estava ocorrendo, o que era incomum. O aumento de recursos disponíveis a partir da redução de impostos vai aumentar o consumo e, como resultado, haverá um pouco mais de crescimento. Isso vai levar a um ciclo virtuoso.

BBC – O Fed, o banco central americano, já reduziu a taxa de juros em três pontos percentuais este ano. Há um limite para essa redução?

Dornbusch – O Fed vem cortando os juros durante todo o ano e ainda tem um longo caminho para percorrer até chegar a zero. E eles vão chegar a zero, se a economia permanecer fraca. Não há nenhum obstáculo para o Fed reduzir os juros. Agora o Banco Central Europeu também está reduzindo as taxas, e isso é positivo.

BBC – O senhor acha que esse corte não está funcionando como instrumento para reativar a economia?

Dornbusch – Demora um pouco para que a redução dos juros afete o consumo. Mas nós temos uma situação boa, em que é possível aumentar a produção, porque a capacidade de produção ainda tem espaço para crescer. Através das políticas monetária e fiscal, nós conseguimos controlar todas as recessões nos últimos 15 anos. E essa nem é uma recessão. Então, eu acho que existe muito pessimismo.

BBC – Falando sobre América Latina, região sobre a qual o senhor não costuma ser tão otimista. A Argentina conseguiu um novo empréstimo com o FMI. O senhor vê solução para a Argentina?

Dornbusch – Eu não vejo. Não vejo um retorno rápido ao crescimento, principalmente, porque o mundo não está tendo um crescimento extraordinário, e ninguém está no momento querendo colocar um monte de dinheiro na Argentina. Então vai ser muito difícil. Vai demorar anos, não meses, ma