Produção caprichada pode comprometer minissérie Mad Maria

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Publicado quarta-feira, 26 de janeiro de 2005 as 17:02, por: cdb

O enredo é bom, o elenco e a direção também, mas Mad Maria é Globo demais. Sim, é difícil reproduzir um fato histórico da proporção da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que dizimou milhares de trabalhadores com péssimas condições de trabalho e pragas dos confins da floresta amazônica.

Tão difícil que a emissora levou 20 anos para realizar. Seria falso, entretanto, dizer que a minissérie tem mais esmero na produção do que qualquer outra boa atração da Rede Globo de Televisão, como A Muralha, A Casa das Sete Mulheres ou tantas outras.

Talvez o primeiro capítulo não seja suficiente para dimensionar Mad Maria. Existiu um trabalho de pré-produção incomum, gravações durante semanas às margens do Rio Abunã, onde a ferrovia foi construída de fato, e um alarde danado em torno da recuperação da locomotiva Mad Maria e dos trilhos colocados no meio da selva. Há que se reconhecer que a cenografia fez um bom trabalho reproduzindo fielmente o acampamento da ferrovia, utilizando como referências as imagens do fotógrafo Dana Merril, que registrou a construção da Madeira-Mamoré.

No fim das contas, o problema é esse. Tudo é certinho demais. O índio que rouba objetos no acampamento tem a pele lustrosa, o cabelo tão brilhante que até parece que fez chapinha. O engenheiro Collier (Juca de Oliveira), que no livro tem uma micose no braço que dá um aspecto asqueroso, foi vítima de uma maquiagem pouco convincente. Seu cotovelo mostra uma casca de ferida sem nenhum inchaço, incomum a picadas de insetos. As roupas dos trabalhadores estão perfeitamente sujas e passadas que parecem saídas direto do museu para o tintureiro.

Voltando o foco agora para o casal da minissérie Doutor Finnegan (Fábio Assunção) e Consuelo (Ana Paula Arósio): após algumas horas sentado na locomotiva, Finnegan está com o terno impecável e sem uma gota de suor no rosto, encantado com a floresta.

O troféu bola-fora, entretanto, vai para a cena em que a pianista Consuelo (Ana Paula Arósio) está tocando piano em cima de uma barca, cruzando o Rio Amazonas. O piano foi importado da Alemanha, mas permanece afinadíssimo. Consuelo também está linda maquiada, bem-vestida, tudo muito estranho para um calor de 42º e um pré-naufrágio.

Mad Maria certamente não vai causar um furor tão grande quanto sua antecessora, Hoje É Dia de Maria, mas talvez o público goste. É o que mostra o Ibope. A audiência entre as duas produções não foi muito diferente: 31 média com 49% de participação. Hoje É Dia de Maria teve 34 e 52% de share.