Problemas comportamentais devido à abusos na infância podem ser agravados por genética

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 5 de agosto de 2002 as 08:20, por: cdb

Os cientistas já sabiam que meninos que sofrem abusos na infância tendem a desenvolver certos problemas de comportamento. Mas agora um estudo sugere uma influência da genética na questão. O Dr. Avshalom Caspi e seus colegas do King’s College, de Londres, e da Universidade de Wisconsin, em Madison, descobriram que meninos que sofreram abusos têm mais tendência a problemas comportamentais se tiverem uma forma específica de um gene responsável pela produção de uma enzima no cérebro chamada monoamina oxidase (MAO).
Esta forma do gene, que produz baixos níveis de MAO, somada aos abusos sofridos na infância, gera meninos mais propensos aos problemas de comportamento, segundo os pesquisadores. A baixa atividade do gene da MAO está presente em cerca de um terço da população em geral, segundo o Dr. Terrie E. Moffitt. Por se tão comum, os pesquisadores nunca tinham usado o gene para prever se alguém estava em risco de desenvolver no futuro problemas de comportamento.
O risco só cresceu quando a atividade da MAO foi combinada com o abuso sofrido no passado. “Para evitar a violência, é preciso evitar antes o abuso de crianças”, disse Moffitt. Os pesquisadores basearam suas descobertas em análises genéticas e experiências de infância de 1.037 pessoas, acompanhadas dos três aos 26 anos. O resultado está na última edição da revista Science. Trinta e seis por cento das crianças no estudo foram maltratadas por volta dos 11 anos.
Além disso, a equipe de Avschalom Caspi destaca que os meninos que sofreram abusos e apresentaram baixa atividade da enzima mostraram-se mais propensos a exibir certos comportamentos anti-sociais, como provocar desordens e predisposição para a violência. Mais especificamente, meninos que sofreram abuso e têm menor atividade do gene da enzima eram quase três vezes mais propensos a no futuro apresentar conduta violenta do que os que têm o gene, mas não foram maltratados. Os que sofreram abusos têm também 10 vezes mais tendência a ser presos por um crime violento.
Ao contrário, meninos com alta atividade do gene da MAO que foram abusados não foram mais propensos do que os demais a desenvolver má conduta ou a ser presos por crimes violentos, diz o estudo. O Dr. Moffitt explicou que a MAO codifica uma enzima que ajuda a manter o equilíbrio correto dos transmissores cerebrais, aqueles que fazem a comunicação entre as células nervosas para nos permitir falar e agir.
“Após seguidas experiências estressantes, os neurotransmissores podem ficar cada vez mais desequilibrados. Então, quem tem baixa atividade da enzima pode não se recuperar tão depressa do estresse”, disse Moffitt.
O gene da MAO está presente no cromossomo X , que os homens têm um e as mulheres, dois. Ele disse que o mesmo padrão pode ser aplicado às garotas, mas só aquelas que têm duas cópias do gene de baixa atividade da MAO. Moffitt acrescentou que os pesquisadores envolvidos no estudo estão preocupados com as implicações éticas da pesquisa, e enfatizaram que as atuais descobertas não demonstram que crianças com baixa atividade dos genes da MAO possam ser consideradas perigosas antes mesmo de cometerem algum ato violento.
O pesquisador sugeriu que os resultados sejam interpretados mais positivamente, mostrando que quem tem baixa atividade do gene da enzima pode ser protegido de problemas futuros após um abuso.