Presidente da Bolívia busca soluções para a crise, mas tem poucos aliados

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 15 de outubro de 2003 as 03:47, por: cdb

O presidente da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, enfrentando uma aguda crise política e social, pode querer ganhar tempo e convocar um referendo sobre a exportação de gás que deu início à revolta no país, mas conta com poucos aliados no governo para continuar no poder, disseram analistas.

A rebelião popular ‘chegou a tal ponto de radicalização que é difícil que aceite a continuidade de Sánchez de Lozada’, observou Alvaro García, analista da Universidade Católica.

A revolta generalizada contra o presidente e a política liberal que ele mesmo ajudou a instaurar em 1985, quando ainda era ministro do ex-presidente Victor Paz, deixa o mandatário sem grandes possibilidades de manobra.

Em sinal anterior de abertura, o presidente se comprometeu a não exportar o gás nacional até 31 de dezembro, para que a população seja consultada. A proposta, no entanto, não foi bem recebida pelos setores populares, que a consideraram insuficiente.

Os sindicatos e instituições civis exigem a modificação da lei dos combustíveis, afirmando que ela favorece as empresas de petróleo e garante apenas 18% das rendas do negócio para os cofres públicos.

A maioria dos bolivianos é contra a escolha de um porto chileno pelo governo para a instalação de um projeto de transporte de Gás Natural Liquefeito (LNG), porque a Bolívia perdeu seu pedaço de mar para o Chile na guerra de 1879.

Por outro lado, o chanceler Carlos Saavedra garantiu que o presidente recebeu importantes sinais de solidariedade de países estrangeiros e organismos internacionais. Mesmo assim, pode perder maioria parlamentar, vital para a aprovação das leis e iniciativas do poder Executivo.

Seu vice-presidente, Carlos Mesa, colocou-o em situação de desvantagem maior ainda ao declarar seu desacordo em relação às medidas adotadas por Sánchez de Lozada para tentar reverter a situação de crise social, que em menos de um mês deixou um saldo de 70 mortos. O presidente boliviano enfrenta também uma crise ministerial com a renúncia de seus 15 ministros.

O outro grande aliado do governo, o Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), do ex-presidente social democrata Jaime Paz Zamora, manteve seu apoio a Sánchez de Lozada, embora alguns de seus dirigentes tenham manifestado em público suas reservas neste sentido.

As Forças Armadas também mantiveram seu apoio ao governo, porém o general Roberto Claros, comandante da instituição, deixou bem claro que ‘este não é um apoio à pessoa do presidente’.

– Não estamos apoiando a pessoa, mas a Constituição (que) nos ordena a defender um governo legitimamente constituído – esclareceu.

Os pedidos de renúncia se multiplicaram na oposição, nos sindicatos, as juntas administrativas e até os prefeitos de La Paz e El Alto, centros dos protestos contra o presidente. Para tentar aliviar a situação, Sánchez de Lozada pediu solidariedade à comunidade internacional, ancorada pelos Estados Unidos e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

A possibilidade de uma renúncia do presidente foi admitida por um dos aliados do governo, Manfred Reyes Villa, dirigente da populista de direita Nova Força Republicana (MNR).

O líder indígena Felipe Quispe alertou esta terça-feira que os protestos vão continuar até que o presidente renuncie.

– Não negociaremos sobre o sangue derramado de nossos irmãos e manteremos nossa posição de rebelde até a queda do ‘açougueiro’, mesmo que para isso ainda sejam necessários um ou dois anos – avisou Quispe da Bolívia à rádio peruana CPN.