Presença de Lula em Angola é comemorada com festa

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Publicado domingo, 2 de novembro de 2003 as 16:06, por: cdb

Angola espera ansiosa pela chegada do “presidente proletário do Brasil, terra de Jorge Amado e Pelé”, é o que anuncia a vinheta da rádio local. A mídia daquele que é considerado historicamente o maior parceiro brasileiro no continente africano deve voltar os olhos do país para a comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desembarque aconteceu no aeroporto da capital, Luanda, neste domingo.

O país comemora com um festival, nos dias 10 e 11, o 28º aniversário de sua independência da metrópole portuguesa. É tão somente a segunda vez que a data é lembrada pela população sem o terror dos 27 anos de guerra civil iniciados logo após a emancipação. O conflito causou, ao todo, a morte de cerca de 1 milhão de pessoas, numa população que não chega a 14 milhões. A paz foi garantida em abril do ano passado, com um tratado entre o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), partido do presidente José Eduardo dos Santos, no governo desde 1980, e a Unita (União pela Libertação Total de Angola). Esse grupo guerrilheiro só sentou à mesa de conversação após a morte de seu líder máximo, Jonas Savimbi, em fevereiro de 2002.

“Reconstrução nacional” é o bordão geral. “Ainda estamos a engatinhar”, diz à TV o cantor de semba e kizomba – ritmos locais. “Roma e Pavia, não se constroem em um dia”, ressoa, em pedido de paciência para com o governo, o arquiteto Jaime Cravide, 65. Antigo trabalhador da construtora brasileira Mendes Júnior no Iraque, evoca suas “boas lembranças” dos colegas, materializadas no violão mineiro que mantém em casa.
Os angolanos se esforçam por reconstruir não só uma nação arrasada pela guerra, mas também sua imagem nas mentes dos estrangeiros. O título de país com o maior número de minas terrestres em todo o mundo é questionado pelo governo. A alegação é que as ongs internacionais “inflacionaram” as cifras a partir de projeções que não podiam ser verificadas in loco durante os conflitos, como motivação extra para os doadores de recursos destinados à manutenção desses organismos. A antiga estimativa de algo entre 10 milhões e 20 milhões de minas enterradas é substituída por “menos de 5 milhões”, com a ressalva de que os campos minados estão hoje devidamente sinalizados e apenas à espera de sua vez na fila para a visita das equipes de desminagem.

Entre os cerca de 150 mil mutilados pelas minas, ainda são poucos os que têm a sorte de encontrar lugar no renascente mercado de trabalho. A Odebrecht, construtora brasileira, emprega cerca de 200 deles, como parte de seus programas de ação social. Os veteranos de guerra contam com uma pensão que não vai além de US$ 150 mensais (uma faxineira que trabalhe para estrangeiros pode ganhar mais de US$ 200).

Em lugar da matemática macabra da guerra, entra a sedução do crescimento econômico. O discurso político ufana-se na enumeração das riquezas naturais do país. O território tem área equivalente à do estado do Pará e é rico em minérios, diamante e petróleo, além de contar com cinco grandes rios e boa parcela de terras agricultáveis. A produção angolana de petróleo pode alcançar 2 milhões de barris ao dia ainda no ano que vem. O país já é o oitavo maior fornecedor para o mercado norte-americano e a perspectiva é de chegar em breve a produzir de 12% a 14% do petróleo consumido pelos EUA. Nos próximos meses, deve entrar em operação a Hidrelétrica de Capanda, no rio Kwanza, principal obra de infra-estrutura em curso atualmente no país.

O empreendimento conta com a consultoria de Furnas e foi financiado com crédito brasileiro de US$ 1 bilhão ao longo das duas últimas décadas. No caso da Petrobrás, que há 24 anos mantém representação no país, os resultados ainda são tímidos, em comparação com o salto recente na produção brasileira. Em parceria com companhias internacionais, uma área é explorada e outra se encontra em fase de pesquisa. Cerca de 13 mil barris por dia são extraídos.
Mas, as expectativas em torno das novas áreas em licitação p