Prêmio Nobel socialista e homossexual escandaliza o Chile

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Publicado sexta-feira, 7 de setembro de 2001 as 17:18, por: cdb

Um filme que retrata a poetisa chilena e prêmio Nobel de Literatura Gabriela Mistral como uma mulher de idéias políticas fortes e tendências homossexuais provocou a ira de seus biógrafos, admiradores e conterrâneos.

O filme, em fase de produção, descreve uma Mistral muito diferente de sua imagem conhecida, de uma professora rural austera que galgou até o pináculo das letras universais, enquanto em seu país nem se conhecia sua obra livre e respeitada.

“Estamos falando de Gabriela Mistral como uma personagem sexuada, que nada tem a ver com a mitologia que tínhamos dela no Chile”, disse o roteirista e produtor do filme, Francisco Casas.

Casas trabalhou com o diretor Yura Labarca. “São peças que vão montando uma mulher apaixonante e extremamente contemporânea para sua época”, acrescentou. “Tomamos conhecimento de suas tendência políticas, e com isso foram aparecendo suas relações amorosas com outras mulheres.”

Se a obra de Gabriela Mistral, basicamente composta dos livros Desolación, Ternura, Tala, Lagar e Poema de Chile, até hoje é pouco conhecida no seu país e em boa parte da América Latina, menos ainda sua vida.

A poetisa nasceu em 1889 com o nome de Lucila Godoy em um vilarejo de Vicuña, no meio do Vale de Elqui, a cerca de 500 quilômetros ao norte da capital chilena.

De família pobre, de um pai boêmio, surgiu a mulher que chegou a medir 1,78 metros, que não gostava nada de sua imagem no espelho, e que dava conta de seus tormentos interiores em poemas de alta carga emocional.

Depois do Nobel, em 1945, a vida de Mistral muda e passa a girar em torno da literatura.

A crítica concorda que Mistral é uma desconhecida. Mas mesmo assim, surgiram protestos de todas as partes, desde biógrafos até autoridades da região em que Mistral nasceu, dizendo que Casas está “manchando a reputação” da poeta.

O roteirista disse que realizou pesquisas no Chile, México e Estados Unidos, onde Mistral passou boa parte de sua vida e veio a morrer. Sua pesquisa, segunda ele, trouxe à tona material inédito que revela as idéias políticas e literárias da poetisa, e suas relações amorosas.

Leia um de seus poemas:

DESOLACIÓN
de 1922

La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola de salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tiene su noche larga que cual madre me esconde.

El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanura blanca, de horizonte infinito,
miro morir intensos ocasos dolorosos.

¿A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!

Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que son míos;
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos,
sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos.

Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.

Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no encuentro los instantes,
porque la “noche larga” ahora tan solo empieza.

Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que vine para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales;
¡siempre será su altura bajando de los cielos!

Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiada