Praia da Farofa é sinônimo de diversão popular

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Publicado sexta-feira, 3 de agosto de 2001 as 19:41, por: cdb

Raul Karajás vê, do quintal de sua casa, a movimentação dos barcos no porto da cidade. A maioria das viagens não dura três minutos, pois é a simples travessia do Araguaia até a margem oposta, na Praia da Farofa, onde um formigueiro humano começa a se formar, sob o sol escaldante de um inverno que existe somente no nome e na seca do rio.
Cada barraca montada ao lado dos ranchos – que vendem desde comida até utensílios úteis aos visitantes – deveria pagar R$ 50, por toda a temporada, que dura todo o inverno, para a Associação dos Índios Karajás, uma instituição criada e gerida pela Funai para angariar recursos a serem empregados “na melhoria da qualidade de vida da tribo”, acredita Raul. Mas a realidade não é bem essa. Os comerciantes – praticamente todos do lugar – reclamaram muito por ter que pagar esta quantia e, para recuperar o capital investido, cobram a diária de R$ 10 reais por cada grupo de turistas que se aventura naquelas areias.
– A gente paga R$ 15 por dia, mas tenho direito a usar o quarto – diz Solange Pereira, enquanto dobra algumas roupas deixadas ao sol para secar. O quarto a que ela se refere, no entanto, é uma construção de bambu e piaçava, atrás do “Restaurante da Mariazinha”, a feliz proprietária de oito cômodos feitos especialmente para abrigar os visitantes.
Ora, se cada grupo de turistas paga R$ 15 por acomodação, só aquela comerciante já faturou mais do que o suficiente para pagar a “quantia simbólica de R$ 50”, como classifica o agente ambiental Anísio de Sousa Neto, destacado para fazer a cobrança da diária. E este foi o primeiro ano que a medida entra em vigor. Até então, as terras dos índios eram ocupadas, nesta época do ano, sem que sequer se pedisse licença.
Nem isso faz Raul Karajás perder o sorriso franco e bonachão, que ressalta no rosto com a pintura em tinta feita de genipapo e urucum. O ex-chefe da tribo ainda acredita que os homens brancos serão justos e parcimoniosos no uso das terras “alugadas”. Ele passa as tardes em uma casa que serve de loja para a venda de lembranças e outros artefatos produzidos na tribo e de uma espécie de museu indígena.

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