Posição da Igreja Católica sobre camisinha provoca indignação

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Publicado quinta-feira, 16 de outubro de 2003 as 14:20, por: cdb

A oposição entre a visão da Igreja Católica e de pessoas que trabalham na prevenção e tratamento da Aids é antiga. A polêmica sempre volta à tona quando algum representante religioso reafirma a posição dominante na Igreja, que é contrária ao uso de preservativos para evitar a transmissão da doença. Nesta semana, o cardeal colombiano Alfonso Lopes Trujillo reacendeu o debate, ao afirmar que a camisinha não é eficiente para evitar o combate ao vírus.

A declaração causou, mais uma vez, indignação entre autoridades e representantes de entidades de combate à Aids. “É um absurdo. Acho que o mundo inteiro tem que se posicionar contra essa afirmação”, disse a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), presidente da Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal. O Ministério da Saúde divulgou nota, classificando a declaração do cardeal de “irresponsável”.

O cardeal se apóia em resultados de pesquisas segundo as quais os preservativos ainda não atingiram 100% de eficácia. Ele usou como argumento a estatística da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que o preservativo tem uma margem de falha de cerca de 10%. Só não alertou seus fiéis de que a própria OMS recomenda o uso de preservativo como a forma mais eficiente de evitar o contágio da Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

“A Igreja, evidentemente, com sentido de responsabilidade, alerta sobre esse perigo. Não quer fazer uma declaração de caráter científico, o que não lhe compete, mas alerta sobre o possível perigo de contágio no uso do preservativo”, explicou Dom Rafael Llano, bispo da igreja católica brasileira.

Dom Rafael afirma que o preservativo é um “meio ilícito” de evitar doenças. Segundo ele, a Igreja prega que o sexo seja praticado apenas no casamento. ”A Igreja pensa que tem que ser respeitada a lei natural, ou seja, a relação conjugal deve estar aberta à procriação. Isto não acontece com o uso dos preservativos”, acrescentou.

O bispo afirmou que esta posição da Igreja, embora fora da realidade da maioria de seus fiéis, é a mais correta. Ele comparou a relação sexual antes do casamento à atividade de bandidos, corruptos e do ditador Adolf Hitler que matou milhares de judeus, com a aprovação da maioria dos alemães. Apesar de serem comportamentos disseminados, não significa que sejam corretos. “Não quer dizer que a realidade indique a moralidade”, disse Dom Rafael.

Católica, a senadora Lúcia Vânia acredita que a posição da Igreja está ultrapassada. “Eu acho que a Igreja está fora do seu tempo, fora do nosso tempo, e ela tem um papel fundamental no esclarecimento das pessoas”, afirmou.

Lúcia Vânia, presidente também da Subcomissão Temporária da Criança, do Adolescente e da Juventude, preocupa-se com a repercussão da declaração do cardeal colombiano entre os jovens. “Nós temos ainda uma incidência muito forte de Aids na juventude, principalmente, na faixa de 14 a 24 anos. Precisamos disseminar o uso da camisinha”.

“Esse tipo de afirmação não nos parece nem correta, nem útil ao trabalho de prevenção do HIV/Aids. Os preservativos são seguros, desde que usados corretamente”, ressaltou a coordenadora-executiva do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa), da Bahia, Rosa Marinho. Segundo ela, a entidade tem procurado sensibilizar a Igreja Católica “no sentido de compreender que o mundo é mais amplo, mais diverso e mais difícil de interagir do que se pode supor a partir de dogmas muito fechados, tradicionalistas e conservadores”.