Por que Porto Alegre e Davos são incompatíveis

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Publicado terça-feira, 25 de janeiro de 2005 as 12:39, por: cdb

Davos nasceu para ser o cenário da euforia do neoliberalismo, assentada na hegemonia do capital especulativo, na promoção desenfreadas das marcas das grandes corporações – de que McDonalds e Microsoft eram os melhores exemplos, no exibicionismo da riqueza e do luxo -, como saberíamos depois – , obtidos em grande parte por mecanismos fraudulentos por parte de grandes executivos de corporações. Assentava-se no “Consenso de Washington”, que pretendia ditar regras únicas para todas as economias do mundo, emanadas do FMI, do Banco Mundial e da OMC.

Pretendia fazer do mundo inteiro um grande mercado, fazer de todas as coisas – os bens, os direitos, as pessoas – simples mercadorias, em que tudo teria preço, tudo se venderia e se compraria. Seria o capitalismo mais pleno em escala mundial. Os Estados seriam reduzidos a meros executivos do grande capital – das grandes corporações, dos bancos e dos organismos econômico financeiros internacionais -, e a educação e a saúde convertidas em bens compráveis para os detentores de dinheiro.

O resto seria o resto. Países e continentes inteiros entregues à miséria e ao abandono, porque estão fora do interesse das grandes corporações e dos mercados especulativos. Bilhões de pessoas do Sul do mundo privadas dos direitos elementares à vida, a começar pelos medicamentos básicos para combater a malária, o tifo, a febre amarela, a aids e outras doenças as quais os ricos estão livres ou dispõem dos recursos para combater.

Davos foi a estação de esqui da Suíça – conspurcando o cenário de “A montanha mágica”, de Thomas Mann, um dos mais agudos críticos da decadência burguesa, para fazer sem pudor seu convescote anual os mais ricos do mundo – antes que vários deles caíssem em desgraça, nos escândalos de corrupção das empresas que dirigiam.

Davos morreu com o esgotamento da expansão neoliberal dos anos 90, com os grandes escândalos das corporações, com o clima de guerra instaurado pela fúria imperial estadunidense. Tornou-se uma vitrine vazia. Nenhum mandatário importante do mundo se dá o trabalho de pegar seu aviãozinho presidencial para passar sequer uma tarde por lá. Grandes magnatas decadentes, junto a magos da auto-ajuda – como Paulo Coelho – passeiam como em um cenário de circo que já teve seus dias de glória, mas que hoje só abriga palhaços sem graça, equilibristas desconfiados, leões sem dentes, em público.

Desde a primeira vez que se enfrentaram, no debate que foi ao ar, transmitido para todo o mundo pela tevê, no 1º Fórum Social Mundial, Davos perdeu para Porto Alegre. Perdeu, em primeiro lugar, pelo tipo de gente que vem a Porto Alegre e pelo que vai a Davos: ricaços petulantes de gravata e limusine por um lado, que acreditam ser os donos do mundo, e gente com cara de gente por outro, que luta não por seus interesses imediatos, mas por um mundo melhor para todos. Alguns poucos por um lado, representando as minorias que possuem concentradamente as riquezas do mundo, tantos por outro, lutando para a socialização dos bens materiais e culturais do mundo.

São incompatíveis, porque Porto Alegre surgiu lutando e luta sempre pela regulamentação do capital financeiro, pela cobrança de taxas sobre a movimentação desse capital, que reverta para atender as necessidades cidadãs da grande maioria da humanidade, sem acesso aos bens elementares. Porto Alegre nasceu para lutar, e luta sempre pelo fim do pagamento das dívidas – injustas, já pagas, impagáveis – dos países do Sul do mundo, para que deixem de trabalhar e produzir para enriquecer os países credores e suas instituições financeiras.

Porto Alegre nasceu para lutar e continuará sempre a lutar pelo respeito ao meio ambiente, por modelos de desenvolvimento auto-sustentáveis, pelo controle e proibição dos transgênicos, pela segurança alimentar, pela reforma agrária. Porto Alegre lutou desde o seu começo, e sempre lutará pela democratização da mídia, sem a qual nunca haverá democra