Por que os motoristas gostam de correr?

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Publicado sexta-feira, 17 de outubro de 2003 as 09:56, por: cdb

No mundo contemporâneo, onde o automóvel é o grande símbolo de status, o trânsito já é considerado o maior e mais grave problema das grandes cidades. Além do crescimento vertiginoso da frota nacional – cerca de 28,2 milhões de veículos registrados – o comportamento desregrado dos motoristas contribui decisivamente para o caos
urbano. Violando sistematicamente as mais elementares regras de circulação, os maus motoristas são responsáveis pelo aumento desenfreado do número de acidentes muitos com vítimas fatais.

Porque os motoristas estão cada vez mais audaciosos na condução de seus veículos? Em busca de respostas para esta que vem se tornando uma questão crucial para a deteriorização da qualidade de vida nos grandes centros urbanos, a psicóloga e mestranda em Psicologia Ambiental Ludmila Fernandes da Cunha, da Universidade de Brasília (UnB), e a socióloga Alessandra Olivato, da Universidade de São Paulo (USP), realizaram estudos e pesquisas para dimensionar como as pessoas se portam no trânsito. Elas buscam respostas e soluções para uma política que amenize as causas de acidentes de trânsito.

Ludmila pesquisa o gosto pela velocidade cultivado pelos motoristas de Brasília, que ela define como constante, mesmo estando cientes dos limites impostos pela legislação. O estudo se baseia no comportamento dos condutores e a relação desse procedimento com os elementos físicos que existem nas vias urbanas (os semáforos, placas indicativas de velocidade, pardais, faixa
de pedestres e as barreiras eletrônicas). “Meu questionamento era identificar que influência esses elementos físicos do ambiente da rua teriam sobre esse comportamento específico de velocidade dos motoristas. Será que eles teriam uma influência diferenciada ou não?”, questiona Ludmila.

Levantamento de 2002 feito pelo Detran do Distrito Federal (DF) indicam uma frota de 689 mil veículos, 716.928 multas aplicadas por excesso de velocidade, sendo 73,31% do total de multas em todo DF. Nesse mesmo ano, 407 pessoas morreram em acidentes que envolveram 288 automóveis. Este ano, até maio último, 170 pessoas já morreram em acidentes, sendo que dessas, 132 foram vítimas de carros. O DF tem 274 pardais e 20 barreiras eletrônicas espalhadas na rede urbana e o valor das das multas por transgressão a lesgilação varia de R$ 53,20 a R$ 191,54.

Já a socióloga Alessandra Olivato estudou o comportamento dos motoristas na cidade de São Paulo. O resultado do trabalho apontou para um completo distanciamento dos condutores de uma percepção clara do que é público e o que é privado. Junte-se a isto um crescente individualismo e uma inexplicável má formação dos motoristas, que resultam no caos do trânsito da maior cidade brasileira. “O espaço privado é o espaço da casa, dos lugares privados, das relações familiares, enfim, os espaços onde o que impera é a lógica particular de cada um. O espaço da rua, onde todos têm o mesmo direito – teoricamente -, onde impera o princípio da igualdade, é o espaço
público”, explica Alessandra.

A frota paulista é de 12,3 milhões de veículos. Segundo o Detran/SP, só na capital circulam 3.872.957 automóveis particulares. Esse número contribui para este veículos sejam os que mais se acidentem no trânsito, sendo que em 2000 eles participaram da morte de mais de 1.400 pessoas nas vias urbanas da capital. Outro dado é que os condutores que mais se envolvem em acidentes na cidade estão situados na faixa etária dos 18 aos 34 anos.

Em pesquisa realizada pelas professoras Letícia Marín-León, da Unicamp, e Marília Martins Vizzoto, da Universidade Metodista de São Paulo (Unimesp), com 2.116 estudantes de Campinas (SP), no primeiro semestre de 1996, elas concluiram que “os jovens, principalmente do sexo masculino, integram o grupo que mais se envolve em acidentes de trânsito com mortes”. Isso, segundo elas, “por serem mais impulsivos, ousados e apresentarem comportamento mais agressivo”. Outra constatação do trabalho é a d