População pouco participa de exercício de emergência em Angra dos Reis, afirma diretor da CNEN 

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 23 de março de 2011 as 16:20, por: cdb

Poucos moradores ao redor das instalações das usinas nucleares de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, participam de treinamentos para emergências com medidas para a rápida evacuação da área. Nos exercícios periódicos, não mais que 1% das cerca de 3.700 pessoas que habitam dentro do raio de até 5 mil quilômetros das Usinas Angra 1 e 2 se apresentam voluntariamente para participar.

A informação foi prestada por Laércio Vinhas, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), nesta quarta-feira (23), durante a primeira audiência para debater a segurança do programa nuclear brasileiro. Titular da Diretoria de Radioproteção e Segurança Nuclear da CNEN, ele disse aos senadores que o país é uma democracia e por isso as pessoas não podem ser obrigadas a participar dos exercícios.

– Quantos dos senhores senadores e deputados deixam seus gabinetes e comissões em exercícios de simulação de incêndios? – questionou Vinhas, num reforço ao argumento sobre a dificuldade de contar com as pessoas nos treinamentos.

O diretor da CNEN observou, contudo, que os exercícios adotam procedimentos e meios que levam em conta a totalidade da população. Como exemplo, disse que, mesmo com baixa participação de voluntários, utiliza-se a quantidade de ônibus necessários para a retirada, mesmo que eles “saiam vazios”. O esclarecimento foi feito depois, em entrevista, quando ele afirmou ainda que a retirada não seria ponto tão crítico em caso de acidentes. Lembrou que agora, no Japão, isso foi feito entre três e quatro dias.

Licença de Angra 2

Quando ao fato de a Usina Angra 2 operar até hoje sem licença definitiva, como destacado pelo senador Lindberg Farias (PT-RJ), Vinhas esclareceu que isso decorre de decisão da Justiça, a pedido do Ministério Público. Porém, esclareceu que todas as exigências para a licença definitiva estabelecidas pela CNEN já foram cumpridas. Acrescentou que essa comunicação já foi passada ao Ministério Público, para exame e providências.

A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) e ainda o senador Ivo Cassol (PP-RO) questionaram os motivos da escolha da área de Angra dos Reis, perto de grandes centros urbanos, para abrigar usinas de energia termoelétrica nuclear. O diretor da CNEN esclareceu que essas unidades necessitam estar próximas a fontes de água, além de comentar que a região era um espaço pouco adensado por ocasião dos projetos.

Bomba atômica

Ao abordar a questão dos rejeitos radioativos das usinas, outra questão levantada por Lindberg Farias, Vinhas defendeu a solução de acondicionar o material de “alta atividade” dentro de cápsulas de aço inoxidável e depositá-las no interior de caverna em algum município do país (a idéia é manter esse material guardado até decisão posterior sobre seu destino). Segundo ele, investir em reaproveitamento seria desnecessário e economicamente inviável nesse momento. Além disso, observou que o grupo dos cinco países que possuem bamba atômica – o P-5 – iria reagir a esforços do Brasil nesse sentido.

– O P-5 não iria gostar porque esse poderia ser o mesmo caminho [tecnológico] para a bomba atômica – esclareceu.

O diretor da área de radioproteção da CNEM observou que o Brasil está entre os sete países que já possuem o domínio da tecnologia de reaproveitamento dos rejeitos de “alta atividade”. A despeito da posição do P-5, ele defendeu que o país lance mão desse conhecimento quando for necessário do ponto de vista da segurança energética do país.

A audiência foi uma realização conjunta da Comissão de Serviços de Infra-Estrutura (CI), Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) e Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT).

Gorette Brandão / Agência Senado