Política interna impediu que Amado recebesse o Nobel

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Publicado quarta-feira, 15 de agosto de 2001 as 21:00, por: cdb

Motivações políticas podem ser a causa de nunca ter sido atribuído o Prêmio Nobel da Literatura ao escritor Jorge Amado, considerou em Helsinque o seu tradutor finlandês, Erkki Reenpaa.
Em entrevista à Agência Lusa, Erkki Reenpaa, antigo editor da editora finlandesa Otava e tradutor da obra de Jorge Amado na Finlândia, acrescentou ser “bastante lamentável” que a Academia Sueca nunca tenha atribuído o prêmio a Jorge Amado, que faleceu em 06 de agosto.
O ex-editor da Otava e tradutor de 10 obras do escritor baiano foi peremptório ao afirmar que não existe mais nenhuma outra razão, a não ser “influências políticas”, para que os membros da academia sueca não tenham atribuído a um grande escritor brasileiro e o único “oba” branco entre os doze “Obas” de Candomblé que existem em todo o Brasil.
“Tenho muita pena que por causa da influência política, um grande escritor de renome internacional como Jorge Amado tenha morrido sem receber o prêmio Nobel, que tinha todo mérito de receber”, lamentou Erkki Reenpaa.
Erkki Reenpaa estava esperançoso que o próximo prêmio Nobel da literatura seria atribuído ao seu amigo Jorge Amado, que considera o escritor mais conhecido em língua portuguesa.
“Jorge Amado era um homem muito fraternal e um “incansável lutador” em defesa da população negra da Bahia, que era perseguida pelo fato de praticar o Candomblé.
Tal como Luiz Henrique Pereira da Fonseca, embaixador do Brasil na Finlândia, Erkki Reenpaa recordou também os bons momentos que passou com Jorge Amado na casa do escritor, no bairro do Rio Vermelho, na Bahia.
Contou como Jorge Amado reunia os seus editores e tradutores europeus em sua casa para explicar as histórias que narrava nos seus livros.
Reenpaa disse à Agência Lusa ter visitado Jorge Amado na Bahia em seis ocasiões, e recebido o escritor em sua residência, na capital finlandesa, em outras duas.
O encontro mais marcante para ele foi quando Jorge Amado o recebeu na Bahia com outros três editores e tradutores da sua obra em língua francesa – Jack Lattes, Andre Baeu e Jack Belmonde – e o seu editor brasileiro, Alfredo Machado, da editora Record.
Erkki Reenpaa disse ainda à Agência Lusa que Jorge Amado lhe descreveu os problemas da mesclagem dos valores culturais do Brasil.
“Disse-me em sua casa na Bahia que na Europa pode- se prever mais ou menos o que poderá acontecer amanhã, mas no Brasil nunca se sabe o que vai acontecer amanhã, porque é um país surrealista pela sua mesclagem”, explicou.
“Jorge Amado conhecia bem a importância e o valor dessa mesclagem na cultura brasileira. Por isso ele sempre esteve contra a perseguição dos negros que praticavam Candomblé”, acrescentou.
Segundo Erkki Reenpaa, Jorge Amado dizia que o “povo brasileiro é pobre, mas é romântico e sensual graças a sua mesclagem”.
O ex-editor finlandês está agora se preparando para participar da homenagem que Luiz Pereira da Fonseca está organizando, e na qual pretende ler uma mensagem.
A homenagem, prevista para setembro, no Instituto Iberoamericano, da Universidade de Helsinque, é o “último adeus” de um grande amigo e de um grande escritor da língua portuguesa que jamais esquecerá na sua vida.
Entretanto, à Agência Lusa apurou que o ex-editor da Otava publicará em breve, na maior revista da Finlândia, a “Suomikuvalehti”, um extenso artigo em homenagem ao escritor.