Polêmica da bomba pode prejudicar Brasil, diz analista

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Publicado quarta-feira, 8 de janeiro de 2003 as 21:17, por: cdb

A polêmica causada pelas declarações do ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, em favor do domínio da tecnologia da bomba atômica podem prejudicar a campanha brasileira por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A avaliação é do cientista político e diretor do programa Brasil do Woodrow Wilson Center, Luis Bitencourt, em Washington (Estados Unidos). Para ele, a entrevista dada à BBC Brasil, em que Amaral defendeu a busca do conhecimento para a fabricação da bomba, deve ter repercussões muito mais políticas do que técnicas.

Nesta quarta-feira, a Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (Organização das Nações Unidas) confirmou ter pedido esclarecimentos ao governo brasileiro sobre o assunto.

“Li apenas uma tradução da entrevista e os esclarecimentos feitos pelo governo na mídia, mas solicitamos uma comunicação direta do governo”, informou Melissa Fleming, porta-voz da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), em Viena (Áustria).

Mal menor

Bitencourt acredita que, apesar do ministro Amaral ter convocado a imprensa brasileira para esclarecer sua posição, as declarações à BBC Brasil vão deixar “algumas pessoas de orelha em pé”.

Ele lembra que alguns congressistas americanos já tinham demonstrado preocupação com críticas feitas pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva ao acordo de não-proliferação de armas nucleares, durante uma reunião com militares, em setembro.

“Radicais de direita chegaram a levantar preocupações com relação ao Brasil”, afirma.

Bitencourt diz não ter dúvidas de que “os radicais vão agora achar que isso é uma política de partido. E aqueles interessados em prejudicar a posição brasileira, particularmente nos organismos multilaterais, vão ter um prato cheio”.

O alvo mais provável seria a ONU, onde o Brasil tem seguido uma política consistente e lidera um grupo considerável de países.

No nível técnico, no entanto, “não vamos ter problemas”, acredita Bitencourt.

O professor de Engenharia Nuclear dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ, Aquilino Senra, concorda que a posição do Brasil, do ponto de vista técnico, é clara.

Ele foi um dos integrantes da comissão que assessorou a Constituinte brasileira, que inclui no capítulo 21 da Constituição a proibição de fabricação e até mesmo de transporte de armas nucleares no país.

“O Brasil é o único país do mundo que tem explícito na Constituição que não pode ter bomba (atômica). Eu acho que o ministro estava defendendo o desenvolvimento de tecnologia nuclear para fins pacíficos, porque para defender a fabricação de uma bomba, ele estaria dizendo: ‘Rasgo a Constituição'”, avalia Senra.

Mas Luis Bitencourt lembra que na entrevista à BBC Brasil “houve uma pergunta objetiva ao ministro, e ele respondeu afirmativamente à questão de incluir armas nucleares no desenvolvimento da tecnologia nuclear”.

“O peso político é muito forte e obrigou o Brasil a adotar um esclarecimento diplomático, porque obviamente isso cria problemas na comunidade internacional.”

Argentina

Mas, se as declarações podem dar munição a teorias como a levantada por um jornal americano, em setembro, de que o Brasil, Cuba e Venezuela poderiam vir a formar um “eixo” de esquerda, dificilmente elas vão afetar as relações brasileiras com órgãos como o AIEA.

A posição brasileira é considerada de liderança em não-proliferação. O cientista político Luis Bitencourt afirma que o país está “a anos-luz” da posição de décadas atrás, quando “era considerado fora-da-lei nesta área” e mantinha um programa nuclear secreto.

“A presença do Brasil tem sido tão positiva nesses organismos, que eles sabem dos compromissos que o Brasil assumiu. Sabem que é uma declaração de uma pessoa ainda não completamente informada sobre o tema. Nos organismos técnicos, não há nenhuma dúvida com relação aos objetivos brasileiros”, diz Bitencourt.

Nas relações com a Argentina, houve um trabalho diplomático de aproximação, co