PF investiga assassinato de índio kaiowá-guarani

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Publicado segunda-feira, 26 de dezembro de 2005 as 00:57, por: cdb

A Fundação Nacional do Índio (Funai) antecipou para este domingo uma série de providências que começaria a tomar a partir de segunda-feira no município de Antônio João (MS) por conta do assassinato, neste sábado, do índio guarani-kaiowá Dorvalino da Rocha, de 40 anos. A mesma Polícia Federal que expulsou os indígenas de suas terras, há cerca de 10 dias, agora precisará investigar o caso, por determinação judicial.

Ainda em relação à Funai, entre as medidas tomadas está a instalação de uma base da Fundação no acampamento à margem da rodovia que liga os municípios sul-matogrossenses de Antônio João e Bela Vista. Estão neste acampamento 430 índios que foram retirados, por determinação judicial, das fazendas Piquiri, Ita-Brasília e Morro Alto, em 15 de dezembro passado.

A base da Funai, segundo informação do sertanista e assessor da fundação no Mato Grosso do Sul, Odenir Pinto de Oliveira, conta com cinco servidores. Dois deles são do setor de fiscalização e tem poder de polícia, “o que pode levar um pouco de tranqüilidade para a comunidade indígena”, acrescentou o sertanista. Os funcionários da Funai e policiais federais passaram todo o dia no acampamento tomando depoimentos de índios e seguranças de firma contratada pelos fazendeiros da região, informou Odenir Pinto de Oliveira.

Dorvalino foi assassinado com um tiro a queima-roupa próxima a entrada da fazenda Fronteira. Segundo o sertanista, a porteira desta fazenda está à 20 metros de distância do acampamento. O assassino continua foragido e ainda não foi identificado pela Polícia Federal, que conduz as investigações, acrescentou.

Além da instalação da base da Funai no acampamento, Odenir Pinto disse que serão tomadas uma série de medidas de assistência social para minimizar a precariedade das condições do acampamento. Neste sentido, ele ressaltou que as ações serão empreendidas a partir de uma parceria dos ministérios do Desenvolvimento Social e do Desenvolvimento Agrário com a prefeitura de Antônio João.

O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no Mato Grosso do Sul, Egon Heck, considerou fundamental a ação do governo no acampamento para reduzir o nível de tensão entre índios e fazendeiros. Ele lamentou que as medidas só tenham sido tomadas depois do assassinato de uma pessoa e acredita que a violência entre índios e fazendeiros só terminará depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) julgar o mandado de segurança contra a homologação das terras indígenas da região impetrado pelos fazendeiros.

– É preciso dar um encaminhamento para a solução da posse da terra. Só isso vai diminuir a tensão instaurada. Da parte dos índios existe um limite que já está sendo extrapolado, diante de tudo que sofreram. Tudo isso cria condições para novas formas de violência – alertou Egon Heck

Nota oficial

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), divulgou em níveis nacional e internacional, uma nota oficial de repúdio ao crime. Leia na íntegra:

“Por volta das 12 horas desta véspera de Natal, dia 24 de dezembro, foi assassinado por seguranças contratados por fazendeiros do Mato Grosso do Sul DORVALINO ROCHA, Kaiowá Guarani da Terra Indígena Nhande Ru Marangatu, pai de família e líder da comunidade. Conforme testemunhas presentes ao ato covarde, três indígenas acampados na beira da estrada se encontravam na porteira que dá acesso ao local onde se encontram várias famílias indígenas – 26 hectares, e também é o local de acesso às fazendas Fronteira, Morro Alto, Cedro, dentre outras, quando chegou um carro.

Desceram duas pessoas e apontaram armas para o Dorvalino. Em seguida desceu um terceiro homem, segurança das fazendas, e disparou com arma de fogo contra Dorvalino. Este ainda com vida foi logo conduzido para Antonio João, porém veio a falecer no caminho. Seu corpo encontra-se em Antonio João. Há informações de que o veículo que transportava os seguranças fugiu em direção à Fazenda Morro