Perigosa euforia

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Publicado segunda-feira, 22 de setembro de 2003 as 21:48, por: cdb

A semana se encerra com a euforia das bolsas de valores, a queda do chamado “risco Brasil” e o retorno dos investimentos estrangeiros. Das notícias há duas conclusões. A primeira delas é a constatação clara de que não são só os juros altos que atraem o capital externo; e a segunda é que devemos administrar essa situação com cautela.

Na verdade, conforme vem dizendo faz tempo o vice-presidente José Alencar, os juros altos só podem atrair os especuladores. Os investidores sérios preferem aplicar os seus capitais em país de juros conservadores, uma vez que juros altos costumam ser vanguardeiros da recessão, do desemprego, da inadimplência e do calote. Quanto à euforia das bolsas, todo cuidado é pouco.

Os pequenos investidores já caíram, muitas vezes, aqui e alhures, no conto da prosperidade rápida, via especulação com títulos privados. Quem não se recorda dos anos 70, quando economias da vida inteira escoaram no redemoinho da quebra de grandes empresas? Quem conhece a História sabe como alguns desastres econômicos são devidos à manipulação dos operadores, conforme ocorreu recentemente nos Estados Unidos, onde a Merryl Linch e outras grandes empresas estão sendo processadas pelo Ministério Público, depois de um prejuízo de bilhões de dólares aos fundos de pensão e aos pequenos investidores.

O Estado e a corrupção

Os velhos amigos de Lula têm insistido em que ele não se descuide na vigilância, a fim de impedir que a corrupção venha a tachar o seu governo. As suspeitas sobre um diretor do Banco Central, que admitiu ter enviado alguns milhões de dólares para um paraíso fiscal, por via da CC5 e do esquema de Foz de Iguaçu, terão que ser investigadas exaustivamente, a fim de que não pairem dúvidas.

Governar é vigiar, costumava dizer Tancredo Neves. É dormir com um dos olhos abertos – ora com o direito, ora com o esquerdo. E é importante acabar com a idéia de que tudo o que não é expressamente vedado pela lei é permitido pela impunidade. Os códigos não abrangem toda a complexidade da vida social, que deve ser orientada por aqueles princípios éticos imemoriais, mantidos por todas as sociedades.

Um deles é o de que os servidores públicos devem, além de manter conduta irreparável, demonstrar em tudo seu bom comportamento. Em suma, todos os servidores do Estado são como Pompéia, a segunda mulher de César, da qual ele se divorciou diante de infundados rumores de adultério: não basta que eles sejam honestos, é necessário que também se mostrem honestos.

Há, a propósito de remessa de dinheiro para o exterior, a desculpa de que, se o dinheiro for legítimo, pode perfeitamente emigrar. Mas, quando uma alta autoridade, sobretudo da equipe econômica, remete elevadas somas para o Exterior, demonstra falta de confiança no País, que necessita de investimentos, e em sua moeda. Enfim, falta de patriotismo. Quem age assim não pode participar do governo.

A fronteira

Até agora não se conhecem todas as medidas do governo a fim de fechar a fronteira com o Paraguai ao contrabando e à ida e vinda de dinheiro em espécie.
Alguns membros da CPI que investiga a remessa ilegal de divisas temem que, dentro de alguns meses, terão que criar uma outra comissão de inquérito, a fim de saber o que passa e o que se passa sobre a Ponte da Amizade.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, “Mar Negro” (2002).