Pedro Malan tira figurino britânico e ataca mercados

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Publicado terça-feira, 1 de outubro de 2002 as 11:27, por: cdb

Diante da instabilidade renitente dos mercados – que se recusam a aceitar os “bons fundamentos da economia brasileira” -, Pedro Malan, o ministro, perdeu as estribeiras. Saiu do figurino britânico que imagina exibir e enfiou-se nos costumes latinos que detesta apresentar. Chamou os mercados de ignorantes e gananciosos. Tarde piaste, diria um dinossauro dos tempos em que o Brasil crescia acima da média mundial.

Desde sempre, os mercado financeiros, entregues à própria lógica, são assim mesmo, sujeitos a surtos de euforia e pessimismo. Isto ocorre a despeito dos esforços dos economistas que insistem em desenhar modelos de mercados eficientes ou construir teoremas sobre a indiferença das estruturas de financiamento. A coisa ainda fica pior quando os surtos de euforia envolvem riscos de “descasamento” de moedas, o que freqüentemente tem levado a crises cambiais, financeiras e bancárias em países imprudentes.

Salvo exceções notórias, os operadores e analistas das instituições que trabalham nestes mercados não são capazes de antecipar as conseqüências de suas decisões (se pudessem seria uma maravilha) nem tampouco podem tratar e refletir de forma adequada sobre os desastres que produzem regularmente. Eles não pensam nada, são “pensados” pelas engrenagens a que servem. Têm tanta liberdade de pensamento e ação quanto uma vítima do Gulag stalinista. Por isso imagino que o Dr. Malan, quando chamou essa turma de ignorante e gananciosa, não desferiu uma ofensa, mas fez uma simples constatação.

Já é um avanço. Resta agora compreender que esta história de fundamentos funciona quando a situação é, digamos, normal. Se a finança global está na maré vazante, os fundamentos valem pouco. Mas como a porta está arrombada, ou seja, o balanço de pagamentos não fecha em razão dos furos na conta financeira, é bom não cutucar a onça com vara curta. Os ignorantes e gananciosos são implacáveis. O Dr. Armínio sabe o que isso significa.

Num tom mais acadêmico, o economista Edmar Bacha anunciou a emergência do Dissenso de Cambridge e o naufrágio do Consenso de Washington, num artigo reproduzido no suplemento de fim de semana do jornal “Valor”. Do alto de sua fleugma mineira, meu amigo Bacha, um homem afável e inclinado a digressões cartesianas, nos ensina: o “erro básico do neoliberalismo foi presumir que uma nova era de crescimento global havia sido lançada no início da década de 90, com o fim do comunismo, a emergência de uma nova economia e a globalização financeira… Nessa nova era haveria convergência de renda per capita entre os países emergentes e os industrializados, baseada na expansão do comércio e na transferência de tecnologia destes para aqueles…” Ah, bom, agora entendi tudo.

Bacha também revela ao mais ignorantes (não necessariamente aos gananciosos) que as relações de débito e crédito em moeda estrangeira podem não induzir um elevação da poupança (sic), mas, sim, podem acarretar mudanças patrimoniais desfavoráveis para o país devedor. No caso brasileiro, para variar, quem acabou com a conta do endividamento externo foi a “viúva”. A dita cuja está sendo obrigada a carregar uma pesada dívida interna, fruto da esterilização dos efeitos monetários da expansão das reservas e dos juros estratosféricos que impediam o endividamento e a elevação do investimento do setor privado.