Partido dos Trabalhadores diz que a guerra não ajuda no combate ao terrorismo

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Publicado sexta-feira, 12 de outubro de 2001 as 09:37, por: cdb

O partido reitera sua posição contra a guerra e terrorismo, defendendo uma política internacional, na qual os conflitos sejam enfrentados pela diplomacia e organismos multilaterais, “na perspectiva da tolerância cultural e religiosa, garantia da paz mundial e convivência pacífica dos povos”.

A seguir a íntegra da nota:

Nota do Partido dos Trabalhadores

Em razão dos ataques ao Afeganistão

O PT, desde o primeiro momento, refletindo o justo sentimento de toda sociedade brasileira, condenou de forma categórica os graves atentados terroristas contra os EUA. Ademais, manifestou sua solidariedade às vítimas e ao povo norte-americano e sua posição a favor da punição legal dos autores daquele ato insano, verdadeiro crime contra a humanidade.

Num segundo momento, e com a mesma transparência, o PT expressou sua discordância, no parlamento e junto à opinião pública, com o governo brasileiro, quando ele invocou o TIAR e autorizou a instalação de um escritório do serviço secreto do governo norte-americano em território nacional. Da mesma forma, condenamos publicamente a iniciativa do governo Bush de propor medidas antidemocráticas de combate ao terrorismo, como o reconhecimento, pela justiça norte-americana, de provas obtidas mediante tortura fora de seu território e a prisão por prazo indeterminado e sem mandato judicial de imigrantes, medidas estas que felizmente foram rechaçadas pelo Congresso.

Desde o início, nosso partido expressou sua posição a favor de uma solução diplomática, sob a égide das Nações Unidas e conforme os princípios do direito internacional, para investigar, descobrir, prender, processar e punir os autores do atentado.

Faz-se necessário recordar a opinião pública que o Tribunal Penal Internacional, criado pela Convenção de Roma em 1998 para julgar crimes contra a humanidade, é a instância adequada para a defesa da comunidade e do direito internacional. A negativa dos Estados Unidos em assinar dita convenção está dificultando a instalação deste Tribunal.

Assim sendo, o Partido dos Trabalhadores lamenta os recentes bombardeios ao Afeganistão e o início de uma guerra, com resultados militares pouco significativos e de custos diplomáticos, políticos e humanitários extremamente elevados. O PT considera que a guerra e os bombardeios, que já atingiram muitos inocentes, inclusive quatro funcionários da ONU, são métodos tão cruéis quanto ineficazes de combate ao terror, tendendo inclusive a fortalecer as bases sociais do fenômeno que pretende combater.

Com a escalada militar na região estamos frente à possibilidade de alastramento dos conflitos, proclamado inclusive nas declarações de porta-vozes do governo norte-americano, o que aumentará o número de vítimas civis e potencializa um dos objetivos estratégicos dos grupos terroristas islâmicos, que é justamente a desestabilização política de governos de nações muçulmanas não comprometidos com o fundamentalismo.

Reiteramos nossa posição contra a guerra e o terrorismo e por uma política internacional onde os conflitos sejam enfrentados pela diplomacia e organismos multilaterais, na perspectiva da tolerância cultural e religiosa, garantia da paz mundial e convivência pacífica dos povos. Apelamos para a ONU, governos e sociedade civil no sentido de buscar soluções que façam justiça ao povo norte-americano, por meio de uma ampla aliança internacional contra o terrorismo que seja amparada em fortes ações diplomáticas, políticas e econômicas, mas que preservem a paz mundial e os direitos civis e humanos de todos, inclusive do povo afegão, pobre, oprimido e vítima de guerras e governos tirânicos por mais de 20 anos.

São Paulo, 10 de outubro de 2001.

Deputado federal José Dirceu (SP)
presidente nacional do PT

Deputado federal Aloizio Mercadante (SP)
Secretário de Relações Internacionais do PT

Deputado federal Walter Pinheiro (BA)
Líder do PT na Câmara Federal

Senador José Eduardo Dutra (SE)
Líder do PT no Senado