Para Diap, liberação de emendas acalmará base de Dilma

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 24 de março de 2012 as 07:25, por: cdb

Para Diap, liberação de emendas acalmará base de Dilma

Analista político entende que momento é propício para mudança na lógica da relação entre Executivo e Legislativo, e diz que partidos, inclusive PMDB, não conseguem viver sem governo

Por: João Peres, Rede Brasil Atual

Publicado em 24/03/2012, 10:10

Última atualização às 10:10

Tweet

São Paulo – A liberação de emendas parlamentares é vista como a chave para destravar rapidamente as negociações entre o governo de Dilma Rousseff e sua base aliada, que esta semana se somou a partidos de oposição para obstruir a pauta da Câmara, impedir a votação da Lei Geral da Copa e aprovar a convocação de ministros.

Antonio Augusto de Queiroz, analista politico do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), entende que tudo está conectado à tensão prévia às eleições. Os parlamentares, candidatos ou aliados de candidatos, precisam mostrar serviço em suas bases, e ficam irritados com a demora do Palácio do Planalto em liberar emendas ao Orçamento, instrumento com o qual entregam obras nas bases de atuação.

Mas, para ele, não há possibilidade de que rompam com o governo, ao menos enquanto a oposição não oferecer expectativa de vitória. “Nenhum desses partidos tem condições de sobreviver sem estar vinculado à base do governo”, afirma, incluindo na conta o PMDB.

Confira a seguir trechos da entrevista à Rede Brasil Atual.

Quais os motivos para a rebelião na base aliada na última semana?

São basicamente duas coisas. Uma é o Código Florestal. A bancada ruralista é realmente muito forte na Câmara e pode dar uma demonstração de força restabelecendo algumas das emendas que o Senado suprimiu. E outra é a insatisfação, principalmente de PMDB, PTB, PR e PP com a não liberação de emendas parlamentares que haviam sido combinadas e negociadas por ocasião da votação, lá atrás, da DRU (Desvinculação de Receitas da União). Agora, nenhum desses partidos tem condições de sobreviver sem estar vinculado à base do governo. É realmente uma rebelião que rapidamente será  superada com a liberação das emendas e com a votação do Código Florestal, que o governo não vai ter como equalizar mesmo, vai ter de liberar e ver se consegue maioria para derrotar a bancada ruralista.

A bancada ruralista tem atuação suprapartidária. Como negociar este projeto?

Vai depender muito da conduta dos lideres partidários, se eles e o governo fecharem a questão, mesmo com um número grande deles, a fidelidade a um segmento econômico não se sobrepõe à fidelidade partidária. Agora, o enquadramento, só aqueles que têm notória trajetória nessa área poderiam ser liberados, os demais seriam obrigados a seguir as orientações. Nesse caso, o Planalto teria maioria. Mas não sei se vai chegar a esse ponto de fechar a questão. 

As nomeações do Arlindo Chinaglia (líder do governo na Câmara) e do Eduardo Braga (líder do governo no Senado) ainda provocam algum tipo de movimento ou já foi superada essa questão?

Ainda tem alguma participação residual, mas dessas três, ela é a que menos interfere e que será absorvida com maior facilidade. Porque embora o Arlindo Chinaglia tenha um jeito mais duro de se relacionar, ele é mais, digamos, confiável do ponto de vista dos atores. Quando ele faz um acordo, ele cumpre. 

As eleições municipais mexem com os ânimos?

Esse é o cerne da questão. Ou seja, todos esses outros são menores frente à eleição. Precisam de emendas para se eleger. Depois ficam ouriçados porque é a base deles, onde vai haver a eleição, estão preocupados com as mudanças. Está tudo em função disso e os movimentos do governo com nomeações, trocas e ministérios, isso tem relação direta com os ministérios. Quem perde ou ganha espaço provoca uma disputa no próprio interior da base, no interior do governo. Então, temas que já seriam polêmicos por natureza, vindo à tona a disputa que está, nessa hora o pessoal se aproveita para potencializar. A Copa é o que menos interessa. Ela está sendo utilizada apenas como instrumento de barganha, não há nenhum problema com relação a esse tema, exceto a liberação do álcool, bebida alcoólica nos estádios. Fora isso o resto é quase unanime.

Agora muito se tem discutido sobre a disposição da Dilma de mudar, de fazer política e essa relação com o legislativo, você tem visto de fato essa intenção ou é uma questão de outro nível?

Tem, sem dúvida nenhuma. A presidenta se incomoda totalmente com o fato de ter de fazer concessões a partidos que ela particularmente considera excessivas, e tem resistido o quanto pode. E vai continuar insistindo na mudança desse padrão. Ela compreende perfeitamente como um presidencialismo de coalizão tem de dar espaço a quem ajudou a se eleger, e tem de dar espaço para ajudar a governar. Mas há critérios que precisam ser considerados, afinidade com o setor, uma  trajetória de decência na relação com os bens e a administração pública. 

É um bom momento para fazer essa mudança no sistema político?

É palpável fazer essa mudança de lógica na política porque de um lado a oposição não tem peso, nem atratividade, ou perspectiva de poder, vamos dizer assim. Quem está na situação da oposição fica com prejuízo de um lado e de outro os índices populares da presidente são recordes. O desafio da presidenta é manter o crescimento econômico, entre 4% e 4,5%, inclusive porque este ano servirá de referência para o salário mínimo de 2014, quando haverá eleição. Então se sair agora, esse pessoal só tem a perder. Ela tem muito capital político e gordura pra queimar antes de ficar refém desses grupos, na hipótese de completa debandada de partidos da base.

Qual pode ser o papel do ex-presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) nessa relação com a base?

Ele vai construir um papel no sentido de ser o embaixador que vai acalmar os partidos. A presidenta vai jogar duro lá e depois ele vai entrar como bombeiro para apagar os incêndios. Então ele vai cumprir um papel, sem dúvidas nenhuma importante, evitar que a eleição municipal desagregue principalmente os principais partidos da base.