Papa reuniu-se com Raúl Castro, mas não há previsão de encontro com Fidel

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Publicado terça-feira, 27 de março de 2012 as 07:33, por: cdb
Raúl Castro recebe Bento XVI no aeroporto de Santiago de Cuba

No segundo dia de visitas a Cuba, o papa Bento XVI conversou nesta terça-feira com o presidente cubano, Raúl Castro, em Havana, capital do país. Não há confirmação de reunião com o ex-presidente Fidel Castro. O papa Bento XVI desembarcou em Cuba, na segunda-feira, em sua primeira viagem oficial ao país, dias após fazer críticas indiretas ao regime cubano no México. Para analistas, a principal missão do pontífice é fortalecer o papel da Igreja Católica como mediadora junto ao governo nas negociações para a libertação de presos políticos.

– Estou convencido de que Cuba está olhando o amanhã para renovar e alargar seus horizontes – tarefa para a qual contribuirão os valores que caracterizam o povo cubano – disse.

No seu primeiro dia de visita, em Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do país, o papa foi saudado por uma multidão de fiéis. Bandeiras e cartazes de boas-vindas foram vistos desde a manhã de ontem em diversas cidades cubanas.

Embora o regime de Cuba seja declaradamente ateu, a política atual da igreja cubana é de aproximação com o governo de Raúl Castro, irmão e sucessor de Fidel Castro. A aproximação é um novo capítulo nas relações entre Cuba e a Santa Sé, que já passou por altos e baixos. Nos anos 1960, a tensão chegou ao ponto de o líder cubano Fidel Castro ser excomungado pelo papa João 23.

Para Enrique López Oliva, professor de religião da Universidade de Havana, a visita de Bento XVI ao país tem um caráter muito definido. Segundo ele, o papa “vem em primeiro lugar dar respaldo à política do Cardeal Jaime Ortega” de aproximação com o governo.

A excomunhão, no entanto, não impediu que o papa João Paulo 2º visitasse o país em 1998 e que Bento XVI agora repita a viagem, 14 anos depois. Nos últimos anos, a colaboração entre a Igreja e o Estado cubano passam por temas delicados como a libertação de presos políticos e comuns. Em dezembro de 2011, Cuba libertou quase 3 mil prisioneiros como “gesto de boa vontade”, após receber pedidos de parentes e instituições religiosas.

Meses antes, em julho, o governo libertou 52 dissidentes que estavam presos desde 2003, após um acordo com líderes católicos.

A agenda de Bento XVI, que passará três dias em Cuba, inclui a celebração de missa, uma eucaristia privada na Capela da Casa de Retiro e Convivências e uma visita como peregrino ao Santuário de Nossa Senhora da Caridade.

O ato central da visita do papa será a missa a céu aberto na Praça da Revolução, para a qual se espera grande público, incluindo quase 400 cubanos exilados em Miami, nos Estados Unidos.

Igreja ganha espaço
López Oliva afirma que “o setor da Igreja mais envolvido nas negociações domina o Episcopado Católico. Houve uma renovação com gente jovem, gente que talvez não tenha sofrido ou não tenha participado no conflito igreja-Estado nas décadas de 1960 ou 1970”.

Segundo o professor, a igreja quer um maior acesso à educação e aos meios de comunicação. A instituição “já possui a única revista independente de crítica política de Cuba, a Espacio Laical, na qual escrevem acadêmicos, críticos e pessoas da Igreja”.

Além disso, “o seminário de São Carlos e São Ambrósio se transformou no Centro de Diálogo Félix Varela de Cultura, onde figuras da revolução, vozes da igreja e até alguns opositores (do regime) se reúnem para debater problemas nacionais”, de acordo com Oliva.

Ele acredita que estes espaços são importantes para o clero, por causa da perda de fiéis expressiva que a Igreja Católica sofreu em Cuba. “Você vai em um domingo e as igrejas católicas estão semi-vazias ou vazias, enquanto os templos pentecostais têm tanta gente que não cabe dentro”, diz.

O bispo Juan de Dios Hernandez confirma que a Igreja Católica cubana aspira “a um espaço nos meios de comunicação mais sistemático” e a “uma possibilidade no âmbito educativo”, ou seja, voltar a ter escolas católicas como antes de 1959. “Todo o espaço que a igreja consegue com este diálogo (com o governo) é um espaço também para o povo, a partir da fé. Não teria sido possível a saída dos presos (políticos) sem esse diálogo e também não teria sido possível o indulto de mais de 2 mil presos (comuns)”, diz Hernandez.

O bispo participou de encontros com o Raúl Castro e o descreveu como “uma pessoa muito direta, de agenda e pontos concretos, que não dá voltas e tem um conceito operativo da vida”. “Ele trata de que as coisas aconteçam e não fiquem somente no discurso”, afirma.