Papa recebe presidente russo nesta quarta-feira

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Publicado segunda-feira, 3 de novembro de 2003 as 11:41, por: cdb

O presidente russo, Vladimir Putin, será recebido quarta-feira no Vaticano pelo papa João Paulo II, num momento em que as relações entre a Santa Sé e os ortodoxos russos são más e não apresentam perspectivas de melhora a curto prazo. A audiência concedida a Putin tem poucas possibilidades de modificar a situação atual e principalmente de abrir ao Papa o caminho de Moscou para uma visita que sempre desejou ardentemente.

O presidente russo não esconde sua adesão à ortodoxia. Embora jamais tenha se recusado a receber João Paulo II na capital russa, na prática condicionou seu convite à autorização do patriarcado de Moscou. Entretanto, as condições do patriarcado parecem atualmente impossíveis de ser cumpridas por parte dos católicos.

A divergência mais importante afeta mais de 2 mil paróquias recuperadas – “às vezes com violência” segundo Moscou – pelos greco-católicos (uniatas) no Oeste da Ucrânia, em detrimento dos ortodoxos no início dos anos 90. Estas paróquias e suas igrejas foram confiscadas aos uniatas por ordem de Stalin em 1946 e sua igreja foi proibida. O patriarcado de Moscou queria que as igrejas fossem utilizadas conjuntamente ou que as duas comunidades financiassem a construção de uma segunda igreja. Mas, no terreno, onde os sentimentos nacionalistas ucranianos são intensos, esta solução não é fácil de aplicar.

Na Rússia, o patriarcado não cessa de denunciar o “proselitismo” e o comportamento “missionário” de alguns sacerdotes católicos, exigindo que o Vaticano proíba isto. De fato, o conflito procede da incompreensão mútua: o dinamismo de alguns sacerdotes católicos é percebido pelo patriarcado como uma “concorrência desleal”. Igualmente, a criação em 2002 pelo Vaticano de quatro dioceses permanentes na Rússia foi interpretada como uma ofensa, porque o patriarcado nunca foi consultado.

O ano de 2003 não trouxe nenhuma melhora. O patriarcado rejeitou a idéia de uma escala do Papa em Kazão, capital da república russa de Tatarstão, a caminho da Mongólia, para devolver uma famosa imagem da Vírgem. A Igreja russa enviou a Roma um perito, que determinou que se tratava de uma cópia. Neste contexto, o segundo encontro do Papa com Putin no Vaticano, que o presidente russo já visitou em junho de 2000, pode ser puramente protocolar e satisfazer somente o chefe do Governo italiano, Silvio Berlusconi, que fez todo o possível para que o encontro pudesse ser realizado.