Papa pede perdão por danos causados pelos católicos na Bósnia

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Publicado domingo, 22 de junho de 2003 as 09:44, por: cdb

O Papa João Paulo II pediu, neste domingo, perdão pelos danos causados pelos católicos na Bósnia, encorajou a reconciliação entre as diferentes etnias e afirmou que o país só poderá construir seu futuro num clima de reintegração.

O Pontífice fez estas declarações em Banja Luka, a capital da república sérvia da Bósnia, diante de mais de 50.000 pessoas que assistiram à beatificação do leigo Ivan Merz.

– Desta cidade marcada por sofrimentos e por sangue imploro a Deus misericórdia pelas culpas cometidas contra o homem, contra sua dignidade e contra sua liberdade pelos filhos da Igreja Católica, e que Ele infunda em todos o desejo do recíproco perdão. Só num clima de verdadeira reconciliação, a memória de tantas vítimas inocentes e seu sacrifício não serão vãos e encorajarão (as pessoas) a construir novas relações de irmandade e compreensão – disse o Papa.

Dirigindo-se aos jovens, João Paulo II afirmou que a Bósnia viveu momentos muito difíceis -em referência à guerra de 1992-1995, que deixou 300.000 mortos e mais de dois milhões de refugiados- e acrescentou que agora é necessário trabalhar para que a vida volte a começar em todos os níveis.

– Não cedam à tentação do desalento. Multipliquem as iniciativas para que a Bósnia-Herzegovina volte a ser a terra da reconciliação, do encontro e da paz – disse.

João Paulo II afirmou que o futuro da região depende dos jovens e por isso lhes pediu que “não busquem em outros lugares uma vida mais confortável”.

– Não fujam das suas responsabilidades esperando que outros resolvam os problemas. Vocês têm que solucionar o mal com a força do bem – acrescentou.

Segundo dados da igreja local, 70 por cento dos jovens querem sair do país, fugindo da grave crise econômica que este enfrenta.

O desemprego atinge 43 por cento da população e 81 por cento dos jovens.

João Paulo II disse aos bósnios que compartilha seus sofrimentos e suas esperanças. Nessa linha, logo depois de chegar a Banja Luka, ele expressou seu apoio ao desejo do país de entrar para a União Européia “num contexto de prosperidade, paz e liberdade”.

O Pontífice também pediu à comunidade internacional que continue ajudando os bósnios e insistiu em que mesmo tendo vivido uma “longa prova” (a guerra), o povo do país não pode cair no desalento e na resignação.

– A recuperação não é fácil, exige sacrifício, constância e paciência, mas vocês sabem que essa recuperação é possível – disse o Papa, pedindo aos governantes que não desistam diante das dificuldades.

O líder rotativo da presidência colegial bósnia, Borislav Paravac, que deu as boas-vindas ao Papa, disse que depois do difícil período da guerra “hoje este Estado é formado por uma comunidade de povos livres e iguais, baseados no respeito recíproco, nos direitos humanos, na liberdade e no pluralismo religioso, nacional, cultural e político”.

A missa foi celebrada na colina de Petricevac, perto do local onde, em fevereiro de 1942, ocorreu um fato que continua muito presente na memória do povo: um grupo de nacionalistas croatas “ustachas”, entre os quais estava o antigo frade franciscano Tomislav Majstrorovic, conhecido como “frei satanás”, assassinou 2.300 sérvios.

Durante a missa, o Papa enviou uma saudação ao patriarca ortodoxo sérvio, Pavle, e disse que nos últimos tempos as relações entre ambas as igrejas melhoraram.

Apesar da melhora, Pavle não foi a Banja Luka.

Ainda pesa o apressado reconhecimento que o Vaticano deu à independência da católica Croácia, em 1991, fazendo a Sérvia chegar a acusar a Santa Sé de ter sido senão a causadora, pelo menos “parte interessada” na guerra que se seguiu e que foi o princípio do fim da antiga Iugoslávia.

As relações com a Igreja ortodoxa sérvia chegaram ao pior nível desde o começo do ecumenismo, e muitos ortodoxos continuam olhando a Igreja de Roma com receio.

Prova disso é que nos último dias apareceram nas ruas mensagens contra a visita, e em alguns cartazes foram pintados os