Paiol de Petróleo

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Publicado segunda-feira, 16 de dezembro de 2002 as 23:51, por: cdb

Ao mostrar um só lado do conflito para os venezuelanos e o mundo, as redes de televisão e a mídia do país tentam convencer a todos de que a grande maioria da população se levantou contra o governo de Hugo Chávez.

Mas os acontecimentos de Caracas em nada se parecem com os levantes anti-soviéticos da Europa Oriental após a queda do Muro de Berlim, que contaram com apoio ativo ou passivo das massas populares. O movimento contra Hugo Chávez divide o povo tanto quanto os que derrubaram João Goulart, no Brasil, em 1964, e Salvador Allende, no Chile, em 1973.

O desfecho não será necessariamente o mesmo. Os EUA, depois de se dar mal ao cooperar com os despreparados e incompetentes golpistas de abril, mostram-se mais cautelosos. E Chávez preparou-se para resistir a situações-limite. Enviou os golpistas para a reserva e afastou outros generais conservadores de comandos importantes.

Em novembro, interveio na Polícia Metropolitana, depois que esta feriu a bala vários manifestantes governistas, um dos quais morreu. Essa força já havia matado cerca de 50 pessoas durante a tentativa de golpe e estava sob controle do prefeito conservador de Caracas.

A greve geral convocada pela central sindical pelega CTV (40% dos sindicalizados), pela federação empresarial Fedecámaras e pela aliança oposicionista Coordinadora Democrática, começou em 2 de dezembro sem ter prazo nem objetivos claramente definidos.

Inicialmente anunciada como um protesto de 24 horas para reivindicar uma emenda constitucional que permita um plebiscito imediato sobre a permanência do governo, tornou-se uma paralisação por tempo indefinido, até o presidente anunciar sua renúncia e a convocação de eleições para o primeiro trimestre de 2003. Como já se viu em abril, a extrema direita se sobrepôs à oposição moderada e está a cavalo do movimento.

A adesão popular foi limitada. Nos bairros de classe média da zona leste de Caracas, quase todas as lojas e agências bancárias fecharam. Nos bairros pobres da zona oeste e na maior parte do país, a atividade foi normal. A maior parte da indústria trabalhou e grande parte do resto funcionou parcialmente.

Os incidentes mais sérios foram a prisão de manifestantes da oposição que furavam pneus de ônibus ou assediavam lojas da zona leste que insistiam em abrir e a repressão com balas de borracha e gás lacrimogêneo de manifestações em frente à sede da PDVSA e ao hotel em que se hospeda o presidente da OEA, César Gaviria, que vinha conduzindo as negociações entre governo e oposição, suspensas pela greve.

Foi no dia 5, o quarto da greve, que executivos e gerentes da PDVSA e capitães de petroleiros da frota estatal tiveram sucesso em paralisar a maior parte da indústria petrolífera, que representa 80% das exportações, 55% da receita fiscal e 25% do PIB.

No dia seguinte, produção e exportação estavam paradas e o clima de confronto agravou-se com a morte de três pessoas – por tiros atribuídos a chavistas – durante uma manifestação da oposição na praça Altamira, na qual militares rebeldes convocavam as Forças Armadas a derrubar o presidente.

Desde então, fuzileiros venezuelanos retomaram os terminais marítimos e alguns dos 40 navios rebelados, enquanto trabalhadores leais ao governo operavam terminais petrolíferos e soldados protegiam os postos de gasolina. As exportações começaram a ser retomadas com a partida de um petroleiro no dia 10, mas a produção continuava 65% abaixo do nível normal, de 2,8 milhões de barris diários.

Está claro que grande parte da classe média venezuelana – não só a pequena burguesia, como também muitos trabalhadores qualificados do setor petrolífero – continua maciçamente contra Chávez, apesar de usada como bucha de canhão pelos golpistas de abril. Desde o fim de 2001, a queda dos preços do petróleo e a fuga de capitais (devido à crise política), resultaram num período difícil: em 2002, o bolívar desvalorizou-se 50% e a inflação saltou de 12% para 35% ao ano.

Dada a falta de habili