Os sem-terra e os sem-nada

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Publicado quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007 as 20:52, por: cdb

Existem os sem-terra, os sem-teto e os sem-nada. Aqui, na Europa, há os sem-domicílio fixo e, não podemos esquecer, os filhos da emigração brasileira são os sem-pátria.

 

Falemos dos “sem-terra”. Infelizmente, não consegui abrir o site do Conselho Nacional dos Agricultores e Pecuaristas, onde há a íntegra de uma pesquisa do Ibope sobre o MST.  Essa pesquisa mostra que um pequeno número de entrevistados conhecia ou sabia das atividades do  MST. Ora, à época, a grande imprensa divulgou com alarde que 65% dos entrevistados consideravam o MST como invasores de terras.

 

Eram 65% mas 65% dos menos de 30% conhecedores do MST. A leitura da pesquisa em diagonal serviu à difusão de uma imagem satanizada da organização. E assim se confunde o leitor citadino para o qual reforma agrária é coisa de invasores arruaceiros. E se omite a violência dos donos da terra, vinda desde as capitanias hereditárias, a exploração dos agricultores pelos contrados de meia (os meeiros), mantidos na ignorância, na miséria e numa forma mal disfarçada de escravidão.

 

Porque falo no MST ? Para contar que no dia seguinte à publicação do artigo do Estadão sobre o que a boa imprensa poderia chamar de “desvio de subvenções suíças para o MST”, o órgão patronal dos agricultores e pecuaristas, o CNA, enviou uma carta ao embaixador suíço, em Brasília, pedindo para ser alertada a Suíça quanto a esse desvio. O teor da carta não é nenhum segredo, está no site do CNA.

 

A notícia em italiano e distribuída pela Ansa, foi longe e acabou sendo até lida por um dos participantes do Forum Social Mundial em Nairóbi, no Quênia. Distribuída pela Agência Estado, a mesma notícia envolvendo maldosamente uma ONG suíça (E-Changer) com a imagem satanizada do MST, foi publicada em mais de 250 jornais brasileiros.

 

Sem saber de nada disso,  mas alertado por um simples e-mail, escrevemos a coluna – O MST não é o Sendero Luminoso, de circulação restrita na Internet, em alguns sites, mas que acabou sendo enviada, devidamente traduzida, ao Departamento Suíço de Cooperação e Desenvolvimento, para provar que nem toda imprensa brasileira era contra o MST. Porém, esse episódio mostrou ter havido, voluntária ou não, uma tentativa de se criar um clima para se envenenar o E-Changer junto às autoridades suíças e assim serem cortadas suas subvenções.