Os interesses nacionais

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Publicado terça-feira, 2 de maio de 2006 as 14:39, por: cdb

Evo Morales é um presidente de palavra: fez o que disse que ia fazer. E mais: fez o que tinha de fazer e o que devia fazer. Não está apenas nacionalizando (estatizando) o petróleo: está reconstruindo a auto-estima coletiva dos bolivianos.

Evo Morales não merece críticas nem ataques. Está entrando para a história como um presidente que honra as promessas que fez.

E dá uma certa náusea ouvir o vozerio na mídia dos que pedem medidas drásticas contra o governo (e o povo) da Bolívia, a grita para que o governo brasileiro aja “com frieza empresarial”, para que defenda “os interesses nacionais”. São as mesmas vozes que clamaram pela privatização de tudo neste país, inclusive da Petrobrás. As mesmas que exigem uma integração subalterna à pauta da globalização conservadora, ao império dos mercados dominados por interesses norte-americanos e europeus. Quer dizer: contra índio pobre a gente tem mesmo é que endurecer. Agora, quando se trata dos ricos do andar de cima, a conversa muda de tom e amacia.

O governo brasileiro tem mesmo de atender os interesses nacionais do Brasil. E estes ficam do lado de uma solução negociada com o governo boliviano, dentro das novas regras estabelecidas soberanamente e de direito pelo novo governo de uma nação que acaba de ajustar contas com sua própria história e de reabrir seu senso de futuro, coisa que tinha perdido.

É do interesse nacional do Brasil uma Bolívia soberana e atenta aos interesses de seu povo, que pare de nos remeter imigrantes ilegais para ser mão de obra barata e super-explorada em São Paulo e outras cidades brasileiras. E esta frase nada tem a ver com qualquer sentimento idiota de que “essa gente” vem ocupar o “nosso” espaço, tirar “nossos” empregos, “poluir” nosso meio ambiente com sua suposta “inferioridade”. Tem a ver sim com a luta contra a exploração desabrida do homem pelo homem, com a luta pela igualdade, pela soberania e auto-determinação dos povos.

É do interesse nacional que a Petrobrás permaneça na Bolívia, garantindo, dentro das novas regras e numa negociação de partes soberanas, o abastecimento de gás indispensável ao Brasil e também indispensável à Bolívia, pois este país depende dessa compra pelo seu vizinho e maior comprador.

É do interesse nacional atrair uma Bolívia reerguida para um eixo político e econômico integrador e que hora põe em pauta o gasoduto sul-americano. Isso fortalece a região, atrai o Chile e demais países andinos, pode fortalecer alternativas para o Paraguai e pode ajudar a conter os ímpetos do governo uruguaio de abandonar o Mercosul e partir para uma reintegração subordinada a tratados de “livre” comércio com os Estados Unidos.

A atitude do governo boliviano desloca o eixo da história, empurrando-o mais para a esquerda, ele que ficara sempre se inclinando para a direita desde a queda do muro de Berlim e do socialismo europeu até essa presença de governos mais populares (sempre acusados de populistas) na América Latina. Mas nenhum desses governos teve a ousadia agora demonstrada por Morales.

Se conseguirem uma negociação adequada com o governo boliviano, o governo brasileiro e a Petrobrás entrarão para a história – uma história de que fez e faz parte a luta pela fundação e manutenção da própria Petrobrás como patrimônio coletivo brasileiro.

Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.