Os discursos de Bush

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Publicado terça-feira, 15 de fevereiro de 2005 as 13:05, por: cdb

Este início do ano propiciou dois documentos notáveis sobre a futura orientação da política externa do segundo mandato da Administração Bush. O discurso ( já denominado “Discurso da Liberdade”) de posse e a fala anual da presidência da República, no último dia 3 de fevereiro – o “State of the Union” – permitem traçar os objetivos e as características da nova (nova?) Administração americana. No discurso do “Estado da União” repetiram-se largamente os temas batidos na fala de posse, centrada na caracterização dos EUA – e aí assentaria sua originalidade histórica – como o país da liberdade.

Nada novo. Desde da sua fundação – um ato de rebeldia perante um poder que se mostrava tirano – os homens públicos e os intelectuais americanos imbuíram-se da caracterização do país como a terra da oportunidade, das realizações e das grandes transformações – tudo isso constituindo-se no âmago do “sonho americano”. Um povo livre, numa terra livre – no qual os grandes horizontes abertos (a fronteira) presentes nos épicos westerns de cineastas como Huston ou Ford são, talvez, uma das mais belas imagens. De época em época os americanos foram confrontados com a imperiosidade de partilhar com outros povos essa sua liberdade, mesmo com grandes sacrifícios, como na luta contra os fascismos.

Em nome dessa missão, constituíram-se no século 20 dois grandes eixos de ação externa americana. Ambos eram baseados em um forte intervencionismo, contrários ao tradicional “isolacionismo”. De um lado, homens que entendiam ser necessário impor “liberdade” americana através do braço armado, buscando a felicidade dos povos, com ou sem a aprovação destes mesmos povos. Foi assim com Theodore Roosevelt, entre 1901 e 1908, (com o intervencionismo na América Central e Caribe), com Harry Truman, 1945-1953 (com a chamada Doutrina Truman, formulação da política externa americana na Guerra Fria), e Lyndon Johnson, 1963-1968 (no Vietnã).

Eram intervencionistas que não se inibiram perante o uso do poderio militar americano como expressão da “exportação” da liberdade americana. Um segundo grupo de ações, com outros presidentes, embora como a mesma crença na singularidade dos EUA e na sua decorrente missão de exportar a liberdade, buscaram os mesmos objetivos através da combinação de força e diplomacia. Formularam, para isso, grandes alianças e mecanismos internacionais de amparo aos seus objetivos. Foi assim com Woodrow Wilson, 1913-1921 ( na Primeira Guerra Mundial ), Franklin Roosevelt, 1933-1945 (na Segunda Guerra Mundial), George Bush, 1989-1993 ( pai, na Primeira Guerra do Iraque, em 1991) e Bill Clinton, 1993-2001(usando ora a ONU, ora a Otan, por exemplo, na ex-Iugoslávia ).

A atual Administração americana encaixa-se no primeiro grupo: consideram o fato de serem homens livres, num país livre uma missão que devem repartir com todo o planeta. Sua opção de modus operandi, contudo, distancia-se daqueles presidentes que no século 20 construíram, com grandes sacrifícios, mecanismos estáveis em prol da liberdade no mundo. Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial – citado nominalmente por Bush como exemplo – liderou aliados, tais como a Inglaterra, o Brasil ou a URSS.

Buscou, para isso, amplos mecanismos de consulta e de respeito às características e à natureza dos regimes “aliados” (uma monarquia parlamentar, na Inglaterra; uma ditadura personalista, no Brasil, e um regime comunista, na Rússia). Como antes o fizera W. Wilson, entendeu a complexidade do mundo e que exigências de imposição de regimes ou sua mudança só acarretariam mais dor e sofrimento. Ambos, Wilson e Roosevelt, optaram por grandes arquiteturas mundiais para a manutenção da paz e a punição de países que violassem a lei internacional, através de mecanismos multinacionais como a Liga das Nações e a ONU.

De tais idéias – com uma longa genealogia, quase sempre enraizada nas idéias contidas no opúsculo Paz Perpétua, I. Kant – surgiram pelas