Os desafios do segundo governo Lula

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Publicado quinta-feira, 9 de novembro de 2006 as 17:05, por: cdb

Consagrou-se uma tradição no Brasil: quase sempre os governantes reeleitos fazem um mau segundo governo e acabam julgados apenas por este, e não pelo primeiro. Se não tivessem cedido à tentação da reeleição, possivelmente seriam melhor avaliados pela população ou, em alguns casos, não passariam à história como maus gestores. O caso mais emblemático desta realidade brasileira foi o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Conseguiu se reeleger, mas seu candidato foi fragorosamente derrotado por Lula e agora, mais quatro anos, a rejeição ao governo FHC continua forte, haja vista o fato de ter sido ‘escondido’ o tempo todo pela campanha Alckmin.Lula acaba de ser reeleito e alguns se perguntam se ele será capaz de superar a si mesmo. Temendo esta síndrome, o próprio presidente tratou de dizer no final da campanha de segundo turno que pararia de comparar seu governo com o de Fernando Henrique, porque agora teria de fazer a comparação consigo mesmo.

Eis o desafio de Lula: superar seu próprio primeiro governo, largamente aprovado nas eleições recém-findas. Na verdade, segundo governo é um novo governo, não é apenas a continuidade do anterior. As exigências são outras e maiores, há um controle maior da ‘máquina’, ou deveria haver, e por isso a desculpa de que o governo está apenas no início ou coisa que o valha, desta vez não cabe nem é aceita por ninguém. A população quer avanços e resultados logo, no que não deixa de ter razão.

Será Lula capaz de superar-se? Tenho tranqüilidade em afirmar que sim, ainda que possa ser relativa ou totalmente suspeito, por razões óbvias. Ter um razoável grau de otimismo faz bem à saúde e à vida. O próprio tema central do segundo governo já demonstra esta convicção e vai ser o termômetro: desenvolvimento com distribuição de renda e educação de qualidade. Quando, em cinco séculos, o Brasil ou algum governo conseguiu traçar uma meta tão ousada e corajosa? Temos duas décadas perdidas, a de oitenta e a de noventa, praticamente sem crescimento econômico, que dirá desenvolvimento. A concentração de renda só fez aumentar neste período. A educação de qualidade só existiu, ao longo da história brasileira, em nichos de excelência de algumas poucas universidades públicas e em menor número ainda de estabelecimentos particulares.

Propor uma meta de unir desenvolvimento com distribuição de renda e educação de qualidade pode ser um desafio a juntar todos os brasileiros e brasileiras. As condições dadas para tanto existem, eis que nos últimos anos já houve crescimento econômico, ainda que pequeno, controlou-se o dragão da inflação e houve a maior diminuição da desigualdade social dos últimos vinte e cinco anos. E a educação, por uma série de iniciativas do próprio governo federal e da sociedade, está se tornando prioridade nacional.

Criando-se uma consciência, através dos movimentos sociais, das pastorais das igrejas, do funcionalismo público, de setores médios organizados da sociedade, de ONGs, de que só haverá desenvolvimento se este vier acompanhado de distribuição de renda, de que assim pode-se criar um mercado interno de massas, onde a dignidade e a qualidade de vida das pessoas são valores que interessam a todos, é possível pensar, sim, em vencer o desafio.

O mérito do presidente Lula terá sido acordar a sociedade para um objetivo e estimulá-la a agir e reagir positivamente. Não é pouco para um país do tamanho do Brasil, país-continente, de grande diversidade geográfica e cultural. Nem é um objetivo menor para um dos países mais injustos do mundo. Ninguém segura nem derruba a força da decisão e do sonho de um povo. A montanha de votos recebidos por Lula no segundo turno seguramente sinaliza para o futuro, para um amanhã onde todos os valorosos/as filhos e filhas do povo possam viver dignamente, como seres humanos, como cidadãos, como protagonistas da construção coletiva e solidária de uma comunidade, de um país, de uma Nação.

O desafio está posto e é plenamente po