Os amishes e os puros

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Publicado domingo, 15 de outubro de 2006 as 13:09, por: cdb

Animado pelo feriado religioso, em que se mesclam a Padroeira do Brasil, o Dia da Criança e a Tragédia do “Achamento” da América pelos europeus, meu amigo Saul Leblon me enviou não uma carta, mas um ensaio inteiro:

“Um crime tirou a vida de cinco crianças moradoras de uma comunidade amish, no dia 4 de setembro, na Pensilvânia, nos EUA. Não se sabe o que mais surpreendeu o mundo: se o crime, ou se o modo de vida da comunidade atingida. Na verdade talvez tenha sido o entrelaçamento entre as duas coisas… De repente, do nada, um motorista de caminhão invade a escola de uma reclusa comunidade religiosa. Dispara contra dez meninas. Mata cinco. Fere gravemente outras. Suicida-se. Como um torniquete a comprimir nossa jugular, o drama remete a uma terceira evidência desconcertante que nos ata inexoravelmente a suas raízes profundas: às relações imiscíveis entre pureza e capitalismo.

As fotos dessa comunidade avessa ao consumo tocam fundo a nostalgia irremediável guardada dentro de nós. Não precisa ser comunista. Basta ser humano, levemente humano, para acusar o choque que atravessa nossas grossas camadas de contradições, os engarrafamentos de fim de tarde, os cartões de crédito, as dívidas vencidas e vincendas, as listas de supermercados, os desejos reprimidos. Os compromissos inadiáveis/intoleráveis.

Ruminamos secretamente em algum ponto da alma a perda de madeleines bucólicas que na verdade nunca foram servidas no vagão sujo e sacolejante da história na qual nascemos embarcados. Somos todos passageiros e maquinistas ao mesmo tempo, embora com desigual intensidade.

Os amishes recusaram o comboio. Quando ele passou na estação, preferiram o século anterior. E o fizeram com emocionante obstinação.

Eles descendem de imigrantes suíços e alemães que aportaram nos Estados Unidos no século XVIII, para escapar de perseguições religiosas nos países de origem. Recusam as comodidades da vida modernas e do consumo. Recusam-se a prestar juramento em tribunais. Consideram que seu modo de vida, na verdade eles próprios, já encarna uma verdade ontológica. Dispensa apresentações, cartões de visita, mensagens na internet.

Desnecessário dizer que essa pureza leva-os a rejeitar o Estado, os embates pelo poder e as disputas e contradições da hegemonia. Esse mundo da história, para nós quase uma segunda natureza, está fora de seu horizonte.

Dessa convicção deriva uma dissociação completa com a sociedade de consumo. Move-os a fidelidade a uma pureza original junto à terra encarada como uma extensão do Éden. Não há nada que se possa fazer para além dessa harmonia previamente definida. Exceto respeitá-la, vivê-la antecipadamente. E não maculá-la. Passado e futuro se mesclam numa negação da história.

Perto de sua pertinácia, nossos idílicos planos de fuga para a Chapada Diamantina se o Alckmin ganhar a eleição, ou uma praia deserta quando o (des)emprego sufoca, ou para o simbolismo de uma posição que recuse qualquer concessão como um comprometimento insuportável de princípios inamovíveis, são café pequeno. Na renúncia ao capital, os amishes verdadeiramente foram fundo. Abdicaram até do bezerro de ouro do nosso altar comum, o automóvel, o que explica as cenas pungentes do séquito cinematográfico de 40 carroças e charretes recheadas de olhares infantis, a adornar a marcha fúnebre pelas vidas surrupiadas após a visita da loucura – loucura que é a ordem do mundo. Súbito, a história presente invadiu e ensangüentou o seu recanto: os amishes não tiveram Saddam Hussein, nem admiram Bush, mas o Iraque também chegou ali.

Vista assim, de longe, a resistência utópica inspira incontornável identificação com as pontes secretas que mantemos com a rebeldia. A tragédia, porém, de tempos em tempos aparece para renovar os limites dessa nostalgia e argüir o custo racional da sua prefiguração. Foi o que nos chocou mais que tudo no crime da Pensilvânia. O golpe inesperado contra nossos sonhos secretos.<