Órgão da ONU vê ‘austeridade’ de países ricos como ‘tiro pela culatra’

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Publicado terça-feira, 6 de setembro de 2011 as 07:45, por: cdb

Órgão da ONU vê ‘austeridade’ de países ricos como ‘tiro pela culatra’

Receita de nações em desenvolvimento com salários mais altos e estímulo a investimentos produtivos seria mais efetiva. UNCTAD defende ainda regulação de mercados

Por: Redação da Rede Brasil Atual

Publicado em 06/09/2011, 10:31

Última atualização às 10:31

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São Paulo – Diante dos desdobramentos da crise econômica, os governos da Europa e dos Estados Unidos caminham em direção a um conjunto de medidas descritas como de “austeridade”. Mas segundo Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2011 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), as instabilidades pelas quais passam a economia mundial são resultado da falta de regulação do mercado financeiro e de sua liberalização irresponsável.

Desde a eclosão da crise em países como Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia, todos esses países passaram a cortar despesas, especialmente em programas sociais, como aposentadorias e auxílios a desempregados. A pauta de redução do Estado, classificada como “medidas de austeridade”, visam a reduzir gastos do setor público para evitar colapsos de endividamento.

O problema, segundo o documento da UNCTAD divulgado nesta terça-feira (6), é que o cenário é resultado da falta de mecanismos para coibir a especulação financeira, que provoca prejuízos por interferir artificialmente na cotação de moedas e de títulos da dívida. Em vez de reduzir despesas do setor público e diminuir a intervenção do Estado na economia e em programas sociais, o organismo da ONU lembra da experiência de países desenvolvidos, como o Brasil.

Dados do órgão indicam que a busca por reduzir o déficit fiscal – ter despesas maiores do que as receitas – ao mesmo tempo em que tenta acalmar os mercados financeiros pode ser “um tiro pela culatra”. A avaliação é de que cortes nas despesas públicas terão impacto no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) – soma das riquezas produzidas por uma nação. Uma evolução menor implica menos receita com impostos, aumentando a necessidade de mais endividamento.

O relatório sustenta que essas nações conseguem crescer em padrões semelhantes aos encontrados antes de 2008 por terem apostado, como estratégia para superar a crise, em salários mais altos e uma política fiscal sustentada. Parte desses países passou relativamente ilesa à instabilidade de 2008 e 2009.

A UNCTAD defende ainda “políticas inovadoras” para regular os mercados, criticando a excessiva volatilidade das taxas de câmbio, da financeirização dos mercados de commodities e da nova regulação do sistema financeiro internacional. “A recuperação global irregular torna imperativo abordar os elementos inacabados da agenda financeira global.”

O relatório foi lançado nesta terça, no escritório da Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e Caribe (Cepal), em Brasília. O economista Alfredo Calcagno, Oficial de Assuntos Econômicos da UNCTAD, foi o responsável pela apresentação.