Oposição processa Lozada por crimes contra humanidade

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Publicado terça-feira, 21 de outubro de 2003 as 11:49, por: cdb

Os deputados do Movimento ao Socialismo (MAS), principal partido de oposição na Bolívia, querem pôr na cadeia o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.

Nesta terça-feira, o MAS deve entrar com uma ação na Procuradoria Geral da República acusando o ex-presidente de crimes contra a humanidade – por sua suposta responsabilidade nos episódios que culminaram com mais de 70 mortes no mês passado.

“A documentação já está preparada”, afirmou o deputado Manuel Morales. “Se tudo der certo, ele deverá ser extraditado dos Estados Unidos e poderá pegar 30 anos de prisão”.

De acordo com Morales, o ex-presidente vai ser julgado por genocídio e massacre.

“Queremos que seja enviado para a prisão que ele próprio construiu, na cidade satélite de El Alto”, disse o deputado Filemon Escobar. “Lá, ele ficará a quatro mil metros acima do nível do mar.

Outros delitos

Segundo o deputado Gustavo Torrico, o processo contemplará todos os delitos contra a humanidade supostamente cometidos por Sánchez de Lozada desde que ele assumiu o mandato, em agosto do ano passado.

Além do ex-presidente, também devem ser julgados alguns de seus antigos colaboradores, como os ex-ministros da Defesa, Carlos Sánchez Berzaín e Freddy Teodovich; o ex-ministro do Governo, Yerko Kukoc; o ex-ministro da Previdência, Guillermo Justiniano; e o ex-ministro da Saúde, Javier Torrez Gotilla.

Depois que o processo chegar à Procuradoria, ele deverá ser encaminhado ao Congresso Nacional, onde são necessários dois terços dos votos para que seja julgado no Supremo Tribunal de Justiça.

Os parlamentares do MAS, partido liderado pelo cocaleiro e candidato derrotado à presidência Evo Morales, têm certeza de que Sánchez de Lozada será condenado.

“O que ele fez foi muito grave”, assinalou Manuel Morales. “Sánchez de Lozada não será julgado apenas pelas mortes. Ele também é responsável pelas mais de 400 pessoas feridas à bala e um número ainda indeterminado de desaparecidos”.

Na avaliação do presidente da Câmara dos Deputados, Oscar Arrien, os incidentes ocorridos neste mês devem ser muito bem investigados.

Responsabilidades

De acordo com ele, apesar do excessivo uso da violência, Sánchez de Lozada não é o único culpado pelas mortes.

“A responsabilidade pelos incidentes não deve se limitar à ação do Estado”, ponderou o parlamentar, integrante do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), o mesmo partido de Sánchez de Lozada.

“Houve violência por parte do Estado. Mas, uma verdadeira investigação deve ser feita. O MNR está disposto a abrir todos os canais para a discussão e análise deste processo”.

Organizações não-governamentais, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e o Movimento Indígena Pachakuti, além de outros partidos políticos, anunciaram que também pretendem realizar ações semelhantes, com o objetivo de processar o ex-presidente.

O MAS também defendeu, no fim da tarde de segunda-feira, a abertura de uma investigação contra os principais comandantes das Forças Armadas Bolivianas.

Os deputados do partido querem que os militares sejam responsabilizados pelos recentes incidentes.
Conforme Gustavo Torrico, as investigações devem ser incentivadas pelo novo presidente da República, Carlos Mesa.

Na avaliação do deputado do MAS, os militares que dispararam e aqueles que deram a ordem para disparar contra os manifestantes também devem ser punidos.