ONU: Brasil pode se tornar produtor de ecstasy

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 4 de outubro de 2003 as 13:23, por: cdb

O Brasil pode se tornar um grande produtor de ecstasy e anfetaminas para uso ilícito, alerta a Agência das Nações Unidas para Crime e Drogas.

Essas drogas, chamadas sintéticas porque são produzidas em laboratórios, já estão em segundo lugar em consumo no mundo, ficando atrás apenas da maconha.

“Hoje o Brasil não é um produtor grande de anfetaminas no âmbito ilegal mas poderia se tornar um tão forte quanto a Holanda porque reúne o conhecimento e os insumos necessários”, afirma Bo Mathiesen, um dos responsáveis pelo mais recente relatório da ONU sobre o consumo de ecstasy e anfetaminas.

Os produtos químicos são a parte mais cara da produção de ecstasy e anfetaminas, já que a sintetização pode ser feita em laboratórios relativamente simples. Daí o temor: assim como acontece na produção de cocaína, substâncias como a anfetamina, amplamente usada no Brasil, poderiam ser desviadas para o mercado ilegal.

Anfetamina ‘legal’

Atualmente, porém, é o consumo legal de anfetaminas no país que mais preocupa a ONU e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Há vários usos preocupantes de anfetaminas, como remédios para a perda de peso e estimulantes, que recebem pouca atenção”, afirma Maristela Monteiro, coordenadora do programa de combate ao abuso de drogas da OMS.

Segundo Maristela, a maioria dos países já não usa anfetamina como inibidor de apetite e o mesmo deveria ser feito no Brasil.

A ONU e a OMS consideram as anfetaminas tão perigosas quanto o ecstasy, que, indicam estudos, podem causar alterações nas funções cerebrais, como a perda de memória, e provocar distúrbios no sistema nervoso, levando à depressão e à síndrome de pânico.

No caso das anfetaminas, especialistas alertam ainda que a substância causa dependência e que pode levar ao desenvolvimento de psicoses.

Ecstasy

De qualquer forma, o consumo de ecstasy no Brasil vem aumentando nos últimos anos, principalmente por causa da difusão da música eletrônica em raves (festas ao ar livre) e danceterias.

Até maio deste ano, a Polícia Federal havia apreendido 54.068 comprimidos de ecstasy.

Combinado a uma única apreensão de 10 mil comprimidos feita em Pará, em setembro, o número já supera o máximo registrado, 59.612, em 1999.

O número é baixo se comparado, por exemplo, com os 2 milhões de pílulas de ecstasy consumidos semanalmente na Grã-Bretanha – segundo maior consumidor europeu, atrás da Irlanda.

No entanto, o psicólogo Murilo Battisti, especialista em dependência química e autor de um estudo sobre o consumo de ecstasy em São Paulo, afirma que é difícil estimar o número de usuários, porque há o que diz ser um furo estatístico no que se refere ao uso da droga.

“As estatísticas não têm alcance para medir o que é ainda um gueto, formado por usuários, geralmente jovens, de classes média e alta”, explica Battisti.

Segundo o pesquisador, a droga ainda é muito cara para usuários mais pobres. Um comprimido – geralmente vindo dos Estados Unidos e da Europa – custa cerca de R$ 40. Em Londres, uma pessoa pode comprar a droga pelo preço equivalente ao de uma cerveja.

O inibidor do preço alto, no entanto, deixaria de existir se o Brasil realmente se tornasse um produtor da droga, como teme a ONU.

É difícil saber, no entanto, se o ecstasy se difundiria tanto no Brasil sem uma popularização da música eletrônica na escala que ocorreu na Europa e na Ásia.

“O consumo continua principalmente ligado à cena eletrônica, embora tenha migrado para outros contextos”, afirma Battisti.