Occupy Wall Street revela poder da ‘nova classe trabalhadora’

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 1 de março de 2012 as 11:08, por: cdb

Depassagem pelo Brasil para três conferências e lançamento de um novo livro, orenomado geógrafo marxista inglês aponta as relações históricas entre o capitale o processo de urbanização, relaciona o processo de acumulação das corporaçõesao mercado imobiliário e vê os movimentos urbanos, da Comuna de Paris ao OccupyWall Street, como um vetor poderoso para luta pelo socialismo e a justiçasocial.

Areportagem é de Marcel Gomes e publicada por Carta Maior,01-03-2012.

Sim, aclasse trabalhadora ainda pode revolucionar o mundo em direção à justiça sociale ao socialismo. Mas, não, ela não está mais no chão das fábricas. Agora, os”trabalhadores de Marx” só podem ser encontrados nas ruas das grandescidades globais.

É comessa análise, ao mesmo tempo crítica e cheia de esperança, que o renomadogeógrafo inglês DavidHarveyconduz as conferências que profere no Brasil nesta semana, na PUC-SP, na USP ena UFRJ.

“Precisamosredefinir quem é a classe trabalhadora e, para mim, é aquela que produz vidaurbana”, disse ele, na noite de terça (28), a jovens que lotaram oauditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – e para muitos outrosque não puderam entrar e o assistiram por um telão instalado no pátio.

Comoargumentos para sua reflexão, ele relaciona a força dos protestos de Seattlecontra a Organização Mundial do Comércio, em 1999, a mobilização em Mardel Plata contra a Alca, em 2005, e o movimento Occupy Wall Street,que estimulou ações semelhantes em outras cidades do mundo.

Longede ser uma novidade, o próprio geógrafo inglês lembra outros movimentosanti-sistema que também tiveram características urbanas, como Comuna deParis, em 1871. “É a revolução de caráter urbano mais clássica”,afirma ele, sobre o movimento revolucionário que tomou a capital francesa portrês meses e lançou um governo popular.

Trajetóriateórica

Convidadopela Boitempo Editorial para lançar seu novo livro, “O enigmado capital“(240 páginas, R$ 39), Harvey ainda retoma nas conferências conceitosdesenvolvidos ao longo de sua trajetória intelectual.

Entreeles, as dinâmicas financeiras que resultam na criação das regiõesmetropolitanas (sub-urbanização) e o enriquecimento das corporações com aespeculação imobiliária (acumulação por espoliação).

Suaexperiência como geógrafo e especialista em estudos urbanos o faz ver como previsívela forte relação entre as crises financeiras do capitalismo e o mercadoimobiliário – para ele, o histórico destino prioritário dos excedentes docapital.

Édessa maneira que Harvey enxerga o mercado imobiliário contemporâneo, que, dodia para a noite, ergue novos condomínios, bairros e até cidades inteiras. Foiassim nos Estados Unidos do pós-guerra, e é assim hoje na China e até emalgumas regiões do Brasil.

Sub-urbanização

Dianteda crise econômica dos anos 30, o governo dos Estados Unidos investiu em obrasde infra-estrutura e na construção civil em geral para reaquecer a economia dopaís.

Foi apartir desse período que surgiram os grandes subúrbios norte-americanos, queresultaram nas grandes regiões metropolitanas de Nova York, Chicago e Los Ángeles.

Apartir dos anos 70, o modelo entrou em crise junto à economia do país. Oscrescentes déficits do balanço de pagamentos geraram a desvalorização do dólar(alguma semelhança com a conjuntura atual?) e levaram a uma reorganização daeconomia global.

Em 71,o banco central dos Estados Unidos acabou com a ancoragem do dólar em relaçãoao ouro, dando ponto final ao sistema de câmbio fixo. O adeus aos acordosfirmados na conferência de Bretton Woods, em 1944, gerou um novo ciclorecessivo, agravado pelo primeiro choque do petróleo, em 1973.

Asolução encontrada pelo governo norte-americano repetiu a escrita da primeirametade do século: incentivar os investimentos na construção civil.

A Leida Recuperação Econômica, de 1981, incentivou a aplicação de recursos noramo imobiliário e em 1983 a Fannie Mae foi autorizada a securitizarhipotecas convencionais. A crise do subprime, duas décadas e meia depois,estava em gestação.

Acumulaçãopor espoliação

Nossubúrbios das grandes cidades norte-americanas, os novos proprietários de casaspassaram a ser incentivados a usar mecanismos financeiros artificiais.”Casas que eram compradas por US$ 200 mil logo passavam a valer US$ 300mil. Os proprietários podiam refinanciar a dívida e, de uma hora para outra,colocar US$ 100 mil no bolso”, explica o geógrafo.

Aestabilidade social nessas áreas também é garantida por um rígido controle.Segundo Harvey, nos Estados Unidos a ameaça de demissões passou a ser utilizadapelos empregadores como uma arma contra as mobilizações populares. A culturaconservadora prosperou. “Não é à toa que a maioria tornou-serepublicana”, afirma.

Mas oprevisível estouro da bolha em 2008 ajudou a abrir rachaduras no sistema. Houvemanifestações em diversas cidades norte-americanas contra a crise econômica,migrantes se levantaram em protesto a leis xenófobas e o movimento Occupy ganhouruas e praças do país.

Sobreo Brasil, Harvey deixou poucas palavras. Lembrou que o país consegue, assimcomo a Argentina e outros “emergentes”, escapar da crise por umarazão singular: esses países se aproveitam das exportações de matéria-primapara a China.

Elelembra, porém, que o governo chinês também segue a tradicional receitanorte-americana de estimular o crescimento econômico através da construçãocivil e da urbanização, o que tende a gerar bolhas passíveis de explosão.

Dessaforma, também o Brasil não estaria imune, em um futuro próximo, de uma crisenovamente relacionada à acumulação capitalista através do mercado imobiliário.

Produçãode Harvey

DavidHarvey é umdos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente porseu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital.

Éprofessor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de NovaYork (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001.

Foitambém professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seulivro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como umdos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a SegundaGuerra Mundial.

Seuslivros mais recentes, além de O enigma do capital (Boitempo), são: ACompanion to Marx’s Capital (Boitempo, no prelo) e O novo imperialismo(São Paulo, Loyola, 2004).