O Sexto Dia – Entrou Areia

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Publicado terça-feira, 25 de março de 2003 as 20:00, por: cdb

O vento sopra no Iraque. Deus tem seus preferidos e joga com a meteorologia para ganhar no jogo da morte. Assim foi com o nevoeiro em Waterloo, com a neve na Rússia. Alá faz a mesma coisa e, na falta de umidade, cria tempestades de areia.

Mas, mesmo assim, os anglo-americanos avançam e conseguiram atravessar um corredor polonês de balas, em Nassiriah, disparadas pelos iraquianos que não perceberam estar matando e atacando seus libertadores.

Muitos mercenários devem ter sentido uma vontade tremenda de voltar ou dar no pé, depois de ter entrado nessa fria. Tarde demais para escapar da guerrilha urbana. Vão ter de prosseguir até Bagdá, se não acabarem dentro das urnas mortuárias, dentro do caminhão de manutenção, último da caravana.

Logo de manhã, noticiava-se um bate-boca entre Bush e Putin, dois sujeitos que têm tudo para ser amigos, não muito chegados em direitos humanos. Bush diz que seu play-station está tendo falhas porque Putin vendeu armas, que neutralizam as armas americanas, para os iraquianos. A imprensa fala em degradação das relações com a Rússia, mas depois da ameaça de veto, Bush não devia ter nutrido ilusões.

Agora à noite, fala-se muito num levante popular em Basra contra Sadam Hussein. As segunda cidade iraquiana tem dois milhões de habitantes e os americanos teriam preferido esperar para ver quem ganha. Mas será verdade?

Oum Qasr já foi libertada tantas vezes, mesmo com bandeira americana, e até ontem, retornava sempre às maõs dos iraquianos. Vamos esperar para ver se a Sky News diz a verdade, mesmo porque com areia e fumaça preta dos poços em chamas, o céu não deve estar claro.

A resistência iraquiana conta com esconderijos de armas em verdadeiras grutas, disfarçadas no deserto. Dentro das cavernas, cobertas de areia e invisíveis para os anglo-americanos tem de tudo, até bazuca anti-tanques.

Assustado com a resistência iraquiana, Bush quer mais dinheiro para jogar mais bombas e destruir o Iraque. Pelo jeito, vai entrar no fundo reservado para a reconstrução. Azar dos iraquianos que, com um pouco de flores do deserto, poderiam ter conquistado a simpatida de Bush e evitado todo esse bombardeio. O concerto de rock on the sand foi adiado.

O reitor da mesquita de Paris falou, na França, sobre o risco de uma internacionalização da guerra. Entre as muitas manifestações contra o conflito, há muitas que não são pela paz, mas contra os EUA. A juventude árabe, mesmo nos países ocidentais, está vivendo uma momento de fraternidade e o islamismo nunca teve tantos voluntários. Muitos deles querem ir lutar no Iraque, numa versão oriental do internacionalismo da guerra da Espanha.

Na Jordânia e outros países de fronteira com o Iraque, o Alto Comissariado para os Refugiados não entende mais nada. Previa-se um êxodo iraquiano de centenas de milhares de pessoas. Construíram-se barracas, até agora vazias. Ao contrário do esperado, há iraquianos retornando ao país para lutar na resistência aos anglo-americanos.

Acho que amanhã, agora com autoestrada de quatro pistas, os libertadores chegarão a Bagdá. Nabucodonosor e Saladin devem ter preparado alguma recepção especial.