O sapo e o príncipe

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Publicado sábado, 26 de outubro de 2002 as 03:11, por: cdb

Na imprensa americana, Luiz Inácio Lula da Silva está cada dia mais “Lulinha Paz e Amor” e menos “sapo barbudo”. Com mais um beijinho aqui e outro ali, esta eleição vai transformar o “sapo radical” em “Príncipe da Democracia”.

Nos jornais americanos, a cobertura das eleições aparece em três editorias, com três Lulas. Nas páginas internacionais, os correspondentes tentam decifrar o Lula mistério.

Depois de meses em contato com o PT, muitos acham que o partido não é o bicho papão, mas continuam perguntando se a mudança do Lula para o centro é genuína ou jogo de cena para conquistar votos.

Os dois editores que entrevistei acham que ainda não conseguiram decifrar o verdadeiro Lula.

Correspondentes

Juan Vasquez, editor de América Latina para o Miami Herald, está dando enorme destaque às eleições, e as matérias do correpondente aparecem com freqüência na primeira página.

“O foco da nossa cobertura é tentar descobrir o que o Lula pensa e planeja fazer. Não entendemos ainda se o eleitorado brasileiro está realmente abraçando o Lula ou rejeitando o governo do FHC.”

Richard Lapper, editor de América Latina para o Financial Times, de Londres, foi para o Brasil reforçar a equipe de correspondentes. O material recebe muito espaço e destaque no jornal.

Lapper acha que Lula não tem muitas opções para governar fora do modelo ortodoxo. Vai precisar de estabibilidade e de capital.

“São componentes indispensáveis. Sem uma União Soviética para ajudar, onde ele vai conseguir capital?

Se o partido adotar uma linha pragmática, Lula pode até fazer um bom governo, mas – se os utópicos radicais assumirem o controle – vai ser muito mais difícil.

O perigo hoje são as expectativas sociais que uma vitória arrasadora, de 2 por 1, poderá gerar. A cobrança vai ser muito forte.

Não acredito que Lula vá expulsar empresas estrangeiras e rasgar contratos, mas como vai satisfazer tantas esperancas?”

Editoriais

Nas páginas editoriais, ainda há vozes contra Lula. São menos estridentes, é verdade, mas exigem provas de continuidade econômica, e não apenas promessas.

É nas páginas de opinião que os americanos mais liberais mergulham na onda vermelha do novo “Príncipe da Democracia”.

No New York Times desta semana, o professor e historiador Jeffrey Rubin, de Boston, escreve que “os indivíduos, as empresas e os governos estrangeiros precisam investir no Brasil porque o povo brasileiro está disposto a correr riscos para modificar certas práticas de governar.”

O professor acha que o Brasil pode descobrir uma nova fórmula, diferente de Washington e do FMI, para resolver os problemas dos países emergentes, e esta criatividade merece apoio das forças democráticas.

E como é mesmo o nome do outro candidato? Ninguém sabe. Os americanos acreditam em pesquisas e, com as margens desta campanha, José Serra há muito tempo saiu da cobertura.

*Lucas Mendes é jornalista.