O que é o ser humano? (Ou a história de três decepções)

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Publicado segunda-feira, 6 de agosto de 2001 as 16:19, por: cdb

O mapeamento preliminar do genoma humano deitou por terra a nossa empáfia. Uma decepção! Aliás, a terceira grande decepção nesses últimos cinco séculos. Temos apenas trezentos genes a mais do que um rato. E só 30.000 genes, ao contrário dos esperados 100.000.

A PRIMEIRA GRANDE DECEPÇÃO

A pancada em nossa pretensão equivale à descoberta por Copérnico, no século XVI, de que a Terra não ocupa o centro do Universo.

Em 1514, o papa pediu ao astrônomo polonês que fizesse uma reforma do calendário. Ao estudar o Almagesto de Ptolomeu, Copérnico percebeu as deficiências que transparecem na prolixidade das proposições. A ciência é o avesso da arte, e não o seu contrário. Toda verdadeira descoberta científica deve corresponder à harmonia demonstrada pela natureza. E o modelo geocêntrico de Ptolomeu, embora do agrado da Igreja, era complexo e carecia de beleza.

“Um sistema desse tipo” – escreveu Copérnico a respeito da elaboração ptolomaica – “não parece suficientemente absoluto nem suficientemente agradável à mente”. Ele sabia também que, desde a Antiguidade, o Sol e as estrelas haviam sido contemplados por quem tem os pés na Terra. E não ignorava a força ideológica da Bíblia, que proclama que Deus se encarnou e viveu como homem aqui neste planeta. Não seria este um sinal evidente de que vivemos no centro em torno do qual tudo se move?

Ora, ao beber nas fontes da Antiguidade clássica, o Renascimento aprendeu que a ciência é filha da verdade e não da autoridade. Imbuído dessa mentalidade dessacralizadora, quase iconoclasta, e da convicção de que não há barreiras à pesquisa, Copérnico ousou inverter a posição do observador e imaginou-se com os pés no Sol. Sua conclusão, a de que vivemos num sistema heliocêntrico, foi registrada no De Revolutionibus.

Cauteloso, não esqueceu que a Europa ainda se movia na órbita da Igreja. Por isso, considerou prudente não se apressar em publicar sua teoria heliocêntrica. Permitiu apenas que um esboço manuscrito circulasse entre especialistas. Só veio a admitir que o De Revolutionibus fosse editado quando já se encontrava no derradeiro abrigo, no qual a Inquisição não poderia mais alcançá-lo: o leito de morte.

Ainda assim, o teólogo luterano Andreas Osiander, que prefaciou a obra, achou melhor sublinhar apenas que o sistema copernicano era uma mera descrição matemática, o que não significava que o Sol ocupasse o centro em torno do qual girariam os planetas… E deixou seu texto sem assinatura, de modo a dar a impressão de que fora redigido pelo próprio Copérnico.

A bomba, entretanto, explodiu com a publicação do livro, em 1543, após a morte do autor, e provocou, de fato, uma autêntica revolução ao deslocar, da Terra para o Sol, o eixo do mundo.

Mesmo o nascente protestantismo sentiu-se ofendido ao ver este planeta relegado à condição de uma entre as tantas contas que ornamentam o colar do sistema solar. “Quem se aventura a pôr a autoridade de Copérnico acima do Espírito Santo?” bradou Calvino. Lutero também não se conteve e denunciou: “Esse idiota quer inverter toda a ciência da astronomia; mas a Sagrada Escritura nos diz que Josué mandou que o Sol parasse, e não a Terra”.

A Igreja católica teve, de início, uma reação mais tolerante. Dez anos após a morte de Copérnico, o chanceler austríaco Johann Albrecht von Widmanstadt expôs aos papa Clemente VII, nos jardins do Vaticano, os aspectos fundamentais da teoria heliocêntrica. A reação foi positiva. Não obstante, a Igreja acabou incluindo o De Revolutionibus – oitenta anos após a sua publicação – no Index, a lista dos livros proibidos, onde figurou até 1835.

Se o poder eclesiástico já conhecia as idéias de Copérnico desde 1533, como se explica a perseguição a Galileu no século XVII? Talvez por ter ele escrito em toscano e, portanto, permitido ao povo o acesso às suas teorias. Deve ter pesado também sua atitude, considerada ousada e mesmo irreverente, de desafiar a autoridade papal ao “legislar” sobre os fenômenos d