O protesto da profecia e a tolerância do dissenso

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Publicado quarta-feira, 1 de novembro de 2006 as 23:52, por: cdb

Durante este mês de outubro, a humanidade foi profundamente ferida pela aprovação de novas leis norte-americanas que autorizam torturas e prisões clandestinas, de há muito postas em prática pelo governo Bush. A política norte-americana no Iraque continua matando soldados e civis em nome dos seus interesses econômicos e políticos. Enquanto o governo Bush declara que, do início da guerra do Iraque em março de 2003 até hoje, foram mortas mais ou menos 30 mil pessoas, um estudo da Blomberg School of Public Health, coordenado por médicos da Universidade de Baltimore e publicado pela revista The Lancet, denuncia que, de fato, do início da invasão até agora foram mortos pelos americanos e seus aliados 655 mil iraquianos (Cf. Internazionale, 20 a 26/10/2006, p. 5). Somente de junho ao final de agosto deste ano, o Instituto Médico Legal de Bagdá registrou a entrada de 4881 cadáveres de civis, vítimas de ataques na capital (Cf. Le Monde Diplomatique, octobre 2006, p. 5).
 
Neste contexto, pode ser um bom sinal que Igrejas antes irreconciliáveis se aproximem e religiões que, por séculos, se degladiaram, comecem a se encontrar, não como competidoras e sim como parceiras no esforço de tornar este mundo mais pacífico e amoroso. Há sete anos, a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial assinaram uma declaração comum pondo fim à polêmica entre católicos e evangélicos sobre a justificação pela graça. Foram necessários 500 anos para que as propostas de Martinho Lutero, monge, por vários séculos, considerado herege, fossem aceitas pelos católicos. Hoje, as outras Igrejas cristãs são convidadas a comemorar junto com as Igrejas luteranas o 31 de outubro como “o dia da reforma”. Em 1985, centenário do nascimento de Lutero, o próprio papa João Paulo II chamou o reformador de “mestre comum na fé” para todos os cristãos. Quem estuda História sabe que a reforma luterana representou um grande passo para o movimento de consciência dos direitos individuais na sociedade. A Igreja Católica reconhece que a teologia luterana ajudou-a a reafirmar a primazia da graça de Deus no caminho da fé.
 
Lutero insistiu que a vocação da Igreja é reformar-se sem cessar. De fato, para pedir conversão às pessoas, é preciso que a própria Igreja, em seu conjunto, se converta permanentemente. E a realidade deste mundo pede das Igrejas e de todas as religiões que aceitem o pluralismo cultural e religioso,  não como mal inevitável, mas como riqueza suscitada pelo Espírito Divino. O fato de existir Igrejas diferentes, cada qual com o seu próprio rito e com uma teologia específica, é uma riqueza para todas e não um mal a ser superado. Todas as Igrejas têm profundos valores e, como tudo o que é humano têm também seus pecados. A diversidade das culturas faz com que cada uma sempre possa aprender com as outras, assim como o Cristianismo é chamado a se enriquecer no diálogo com as outras religiões e com as pessoas e grupos que não optam por nenhuma tradição religiosa.

Graças a Deus, o Brasil não é um país católico ou evangélico ou muçulmano e sim um Estado leigo que, como missão, deve coordenar a convivência pluralista e respeitosa de todos os cidadãos, crentes das mais diversas tradições espirituais e outros que crêem na vida e na dignidade humana.

O aniversário da reforma e a história do cristianismo nos ensinam que, muitas vezes, o protesto que hoje consideramos errado ou exagerado pode, amanhã, ser julgado justo e oportuno. Durante mais de 500 anos, na Península Ibérica, conviveram cristãos, muçulmanos e judeus, sem conflitos nem perseguições. Exatamente no ano em que Colombo chegava à América (1492), por motivos políticos e de fundamentalismo religioso, os reis de Portugal assinavam um decreto de expulsão dos judeus e muçulmanos do reino espanhol. Já no século XX, o movimento fundamentalista começou entre protestantes norte-americanos. Atualmente, existem correntes fundamentalistas em todas as religiões