O “politicídio” de Ariel Sharon

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Publicado quinta-feira, 25 de março de 2004 as 09:47, por: cdb

No meio da guerra fria, o então secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, ao falar de Anastásio Somoza, disse: “He’s a son of a bitch, but he’s our son of a bitch”, revelando claramente qual o critério para classificar a todos: nosso ou deles, não importa o que seja.
Uma guerra contra o terrorismo no mundo, que não tenha Ariel Sharon como principal inimigo, mas como aliado, não pode ser levada a sério. Para a política de Bush, Sharon é um terrorista, mas um terrorista aliado, o que o diferencia radicalmente, aos olhos dele, de Milosevic, de Saddam Hussein e de Bin Laden.

Sharon foi eleito, em fevereiro de 2001, primeiro-ministro de Israel, com uma votação inédita de 52%. Essa eleição representou uma virada significativa na história de Israel. Essa mudança se consolidou nas eleições de janeiro de 2003, em que Sharon foi reeleito – o primeiro a ter conseguido isso desde Menachem Begin, em 1981 – e sua coalizão conquistou 69 das 120 cadeiras do Parlamento israelense.

No governo de Sharon, Israel tornou-se um agente de destruição da identidade palestina e da identidade do seu próprio país. O professor Baruch Kimmeling, que leciona na Universidade Hebréia de Jerusalém, chama de “politicídio” um processo que tem “como finalidade última a dissolução da existência do povo palestino como uma legítima entidade social, política e econômica.” (“Politicídio – A Guerra de Ariel Sharon Contra os Palestinos, Ed. Verso, Londres, 2003.) Esse processo, na sua opinião, pode incluir também a limpeza étnica dos territórios que consideram como pertencentes a Israel. “Desse ponto de vista, o resultado será um duplo homicídio – o da entidade palestina e, no longo prazo, também o da entidade judaica.”

O “politicídio” é um processo através do qual, por meio de uma série de atividades de caráter social, político e militar, se busca destruir a existência política e nacional de uma comunidade popular e assim negar-lhe a possibilidade de autodeterminacão. A capacidade para desenvolver esta política depende do apoio do governo norte-americano. A deslegitimação do governo de Yarafat, preparando as condições para seu assassinato, foi levada a cabo pela aliança Bush/Sharon, sabedores que isso levará a maior radicalismo e violência – o caldo de cultivo que alimenta esses dois governos.

Os assassinatos seletivos visam à eliminação física dos principais líderes palestinos, aqueles que podem catalisar a identidade de um povo sem Estado e sem pátria. Destruir a memória, a identidade, a auto-estima dos palestinos é o objetivo do terrorismo de Estado de Sharonbush, cujo lugar deveria ser – e um dia será – no Tribunal Penal Internacional, para pagar por seus crimes de genocídio contra a humanidade.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História